quarta-feira, 26 de novembro de 2008

4

Quando as Metralhadoras Cospem
Puta filminho divertido dos diabos, com um monte de musiquinhas viciantes, um design de produção em miniatura (aqueles carros, oh my gooood) e a clara sensação de que tudo é bagunça - só ver como acaba o furdúncio. Mesmo com bilhões de personagens que aparecem rápido e somem mais rápido ainda, vozinhas irritantes e um bando de situações aleatórias, eu acho o máximo! Clássico caso de "amo-até-os-defeitos".
Nota 8.

Feliz Natal
Pequeno grande filme para Selton estrear. Se por um lado a direção do cara (e até o roteiro, mas em menor escala) fica muito preso ao formato artístico em voga no Cinema, por outro lado temos um brilhante veículo para que o elenco, homogeneamente irretocável, dê um show. Do ambígüo Guarnieri à instável Moretto, passando por um Mauro duríssimo e hipócrita, e Glória cuspindo amargura a cada sílaba, os atores dominam o jogo de cena de Mello, incrivelmente versátil, intenso e espontâneo. Meu preferido é mesmo Leo Medeiros, que não fraqueja como protagonista em um segundo sequer, servindo, antes mesmo de o roteiro revelar o duro segredo, como catalisador de toda a desolação e destruição daquela família arrasada. A cereja no topo dessa aula de direção de atores é a trilha de Plínio Profeta, que entra por debaixo da pele e fica pro um bom tempo.
Nota 8.

Jules e Jim
Sem dúvida um dos relacionamentos mais complexos já concebidos pelo Cinema, essa jóia de Truffaut consegue empolgar, instigar, questionar, incomodar, cativar, e criar uma genial reflexão dentro de seu tema, que ganha aqui uma abordagem hiper-realista precisa e pontual, cortesia de personagens geniais. O rigor estético de Truffaut impressiona, sem, no entanto, parecer rigor, dando uma beleza irresponsável a seus planos e movimentos de câmera. O roteiro sensacional dá um inabalável suporte para o trio de protagonistas, arrebatador, entregar performances inesquecíveis, carregadas de um sentimento europeu, sóbrio, que não só reflete uma cultura, como serve perfeitamente à arte do filme. Um dos relacionamentos mais marcantes da história do cinema dá, para o espectador, um nada passageiro vislumbre de por quê entrou para os anais da Sétima Arte.
Nota 10.

Diário dos Mortos
Ah, o bom e velho George Romero. Voltando com um filme de zumbis. Filmado com câmera-na-mão. Mesmo amando o simpático mestre do horror, e mesmo tendo achado Dia dos Mortos e Terra dos Mortos bons filmes, eu não esperava absolutamente nada dessa empreitada. Que bom. A surpresa é grande ao constatar que ele tem, ainda, muito a dizer, através dos zumbis. O comentário afiado, marca da trilogia que faltou, em partes, no quarto filme, volta fresca e bem defendida. Além da ótima metalinguagem com o cinema de terror em geral (não só Romero denuncia os vícios do gênero como evita alguns), o comentário sobre a mídia é tecido com paixão, largamente presente nas críticas sociais dos filmes: George acredita piamente no que está dizendo. Dentre os recentes "cameranamão", "Diário" é de longe o que embasa melhor a constante filmagem, pois é mais que uma ferramenta ou recurso estilístico, é a base do conceito abordado.

O formato do filme é um caso mais complicado. Diferente de [REC] ou Cloverfield, que querem ser realisticamente realistas, o filme de Romero quer ser ficcionalmente realista. Ele traça a linha da ficção logo no começo, e deixa claro o motivo para a escolha do estilo Bruxa de Blair - e continua coerente ao justificar a presença de trilha sonora clichê, por exemplo. Ser mockumentary é parte da crítica social, e quando assusta, também tem um motivo para tal. Há uma boa dose de clichês e inconsistências no conceito, mas nada alarmante. Sobrevoando o elenco mais-ou-menos, o roteiro consegue a façanha de fazer os personagens serem memoráveis através de frases estúpidas: e, convenhamos, não há nada similar a profundidade por aqui. No entanto, alguns personagens são presenteados com uma filosofia simples e direta, que simplifica e resume a situação hipotética apresentada pelo filme, mas comenta o mundo em que vivemos de forma claríssima. Terminando da forma mais ácida possível, o filme (que, além de tudo, diverte) se prova um triunfo por mostrar o Romero autoral e brilhante.
Nota 8,5.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

4

Missão: Impossível
Massa bagarai. O roteiro deixa você prever as reviravoltas alguns minutos antes, e paree ser intencional, pois isso raramente enfraquece o ótimo ritmo do filme. A direção descolada de DePalma, com uns vícios oitentistas divertidíssimos e câmeras bacanas, dá um puta charme - mas a tensão não se perde, pois a famos acena em que Ethan Hunt se pendura por um fio é uma aula de suspense. Cruise, bonzinho, encabeça um elenco foda com Redgrave se divertindo horrores, Ving Rhames todo blasé e fodão, Jean Reno e seu personagem maneiro de sempre e Voight... bem... canastra. As cenas de ação são ótimas, mas não sabotam o filme atraindo atenção demais. Elas privilegiam o suspense e as intrigas, o que o filme tem de melhor, algo que ressalta as poucas e boas cenas de ação. O plot parece copiar tudo que já foi feito em termos de filme de espionagem, mas o filme faz isso com uma propriedade e um senso de diversão pura que dá gosto, justificando a ascenção desse sub-gênero perante o gosto do público.

Nota 8,5.

[•REC]
Com a boa safra de filmes de terror espanhóis, vem [•REC], um filme muitíssimo bem conduzido que já parte de um pressuposto interessante: não quer ser um exercício de estilo, como A Bruxa de Blair e Cloverfield. É um puro exercício de medo. Os diretores Balagueró e Plaza têm a única função de assustar, e não prometem nada mais para o espectador. Nada de personagens profundos, conflitos bem construídos (embora façam falta) ou roteiro complexo. A história se desenrola dentro de um pequeno prédio, e os roteiristas fazem bem em apenas fornecer cenas arrepiantes e situações tensas. Para manter o realismo documental, os personagens se dignam a entrar em desespero, gritando e esperneando, mas o roteiro não se preocupa em ir muito além, para não perder o foco.

Clichê atrás de clichê seguido de clichê, o filme tem uma narrativa quase nula, e não raro é previsível. O grande trunfo, porém, reside aí. [•REC] não subestima o espectador, como se ele não soubesse o que acontecerá em seguida. Os diretores se aproveitam da previsibilidade do "BU!" de forma brilhante, pois sa tensão vem de sabermos perfeitamente que tomaremos um susto, é só esperar. Talvez a ausência de trilha sonora anule a pompa que Hollywood costuma dar a esses sustos clichês. E quando os sustos não são previsíveis, sai de baixo, porque cenas como a do corpo caindo (não é um spoiler, eu ouvira falar da cena e voei da cadeira quando ela aconteceu) são marcantes, e as trombadas com a zumbizada justificam toda aquela correria e gritaria. Por sinal, a origem dos zumbis é uma boa alternativa para a velha e desgastada fórmula, e, vai, alguns clichês de direção e roteiro conseguem ser evitados - mas só quando isso aumenta a tensão.

Contando com uma ocasional, quase acidental beleza estética, um elenco eficientíssimo em sua parca demanda, e efeitos sonoros de gelar a espinha, [•REC] funciona perfeitamente como veículo de tensão e medo. Em tempo: a última aparição me lembrou um filme de José Mojica Marins pela simplicidade da macabra figura.

Nota 8.

A Princesa de Nebraska
Pequeno grande filme de Wayne Wang, "A Princesa de Nebraska" é a história de uma jovem chinesa que vai para os EUA fazer um aborto. Contada assim, parece ser uma chupação do maravilhoso "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", mas Wang toma um rumo diferente, especialmente no tom. Sasha é uma turista vivendo numa realidade relativamente fácil, e o aborto, mesmo sendo focado de forma atenta, é visto sob outro viés. As "aventuras" de Sasha nos EUA são mote para as várias ponderações sobre o filho que carrega, sobre o pai e sobre a vida. Visto apenas de relance, como uma memória distante (algo que o roteiro trata de justificar em diálogos), o pai do filho, um belo amigo da protagonista, é apenas um elemento da narrativa, mas é partindo dele que boa parte da curiosa estética "câmera de celular" se produz.

Filmado de forma quase amadora, com movimentos de câmera e zoom-ins escandalosos, o filme também explica essa escolha: a cena do jantar mostra que a visão dos acontecimentos é sempre deturpada, amadora, e que ver isso de forma documental e, mesmo assim, artificial, é a mais adequada. No entanto, conseguimos nos envolver com a história, graças em boa parte aos esforços sutis de Li Ling no papel principal, uma figura difícil de simpatizar, mas agradável como um todo, e sempre interessante. Ok, o roteiro às vezes se esforça para criar situações chamativas, resultando em vários momentos arbitrários em tom, mas tudo que acontece é coerente com a protagonista. Também é louvável a inclusão de sutis simbolismos (o balão, a unha), a complexidade da relação de Boshen com Sasha e o pai da criança, Yang, e a desses personagens secundários em si.

Usando ainda de efeitos sonoros altíssimos (para ressaltar como a informação nos chega de forma apurada, e mesmo assim falha) e uma trilha diegética, o filme culmina num quase-número musical, uma licença poética em todos os sentidos, pois o filme se permite um tom lírico inexistente até então. A música é "Hope there's Someone", de Antony and the Johnsons, e o efeito da sublime cena é arrebatador. Uma jóia bruta, valiosa como é.

Nota 8,5.

Platoon
Um poderoso e pesado filme de guerra. Aqui há metonímias (meu recurso cinematográfico preferido) que achei incríveis, saindo do velho tema/formato. "Platoon" é as intensas cenas de batalhas, pois nelas está contida a maioria dos elementos do roteiro. Os conflitos internos de cada um transbordam, os externos ganham uma dimensão física, bruta, e muitas facetas de certos personagens caminham para uma apoteose violenta. Não só são muitíssimo bem filmadas as cenas de ação (é injusto resumi-las assim), como a estética deas dá ainda mais profundidade. O conflito final, em que todos os personagens que sobreviveram são retratados de forma extrema (e coerente), é um jogo de luzes e sombras estranhos, desorientadores, que causam medo, dúvida e, sim, maravilhamento. O visual é macabramente bonito, mas também instavelmente tenso, o que adiciona uma porção de reflexos narrativos à cena.

Outra comparação feita pelo filme é a da trajetória de Chris com os dois Sargentos em guerra interna, Barnes e Elias. Sheen começa frouxo, distante da imagem de ambos os veteranos. Com o tempo, o humanismo que Elias consegue manter no campo de guerra aflora no jovem, mas, nos minutos finais, é Barnes que ele espelha. Uma pena que Sheen só esteja bom no papel, não comprometendo graças a um personagem riquíssimo e, claro, a duas atuações primorosas como base, Dafoe e Berenger como Elias e Barnes. O primeiro protagoniza a imagem mais famosa do filme, e escapa de forma brilhante da mesmice militar vista no cinema; o segundo, por outro lado, mantém a imagem bruta do homem de guerra, mas de uma forma selvagem (sua postura é quase anacrônica, remetendo a guerreiros bárbaros), tirando totalmente o glamour de sua autoridade.

O filme tem suas redundâncias, seus tropeços e suas inconsistências, mas usa a linguagem cinematográfica, seja no roteiro ou na direção (Stone se prova nas já citadas cenas de confronto e em images que ele torna icônicas), de forma inteligente, e merece boa parte da atenção que recebe.

Nota 8,5.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

誰も知らない - Ninguém Pode Saber

Esse sensível filme japonês, sensação no Festival de Cannes, merece o alarde que fez e merece ainda mais uma conferida. Exige paciência a trajetória dos 4 irmãos, pois os eventos se desenrolam em uma passagem de tempo pouco formal, em que meses se passam sem uma constância temporal e sem o rigor de deixar isso claro sempre. Curiosamente, isso é o que causa ainda mais impacto, numa ocasional, quase sempre displiscente citação do tempo que se passou. Esse filme não é sobre o longo sofrimento, é como que um retrato da vida de crianças que passam por uma situação tão tristemente comum no Japão. A direção de arte, magnífica e sutil, que trata de criar uma história que ate as elipses constantes, de forma a não deixar claro o que aconteceu, e sim as conseqüências - um empilhamento de lixo, de problemas, de tristezas.

Evitando uma abordagem demasiada trágica, o diretor Hirokazu Koreeda se foca na rotina das crianças, com resultados incríveis. Aquelas pequenas pessoas, que viam na sufocante jornada dentro de malas uma diversão, acabam se acostumando com a situação que vivem da mesma forma. Com o tempo, porém, fica claro que a gravidade do abandono os atinge (assim como outros eventos), e a luz da infância fraqueja em seus pobres rostos. Tudo isso gravita em volta de Akira (Yûya Yagira), o mais velho, que se torna automaticamente o responsável pelos irmãos mais novos. Yagira encarna o jovem com um rigor impressionante, valendo-se da direção precisa de Koreeda para expressar, com o olhar, todo o temor pela responsabilidade que caiu em suas mãos - algo que o roteiro demonstra através de inúmeras pequenezes do dia-a-dia. A atuação do garoto se funde com o próprio personagem, uma mistura de seriedade adulta com temor infantil, talvez na interpretação mirim mais impressionante dos últimos tempos.

E os outros pequenos também cumprem seu papel formidavelmente, nunca parecendo mais (ou menos) infantis do que devem ser, criando um ambiente intimista e envolvente de familiaridade. E é aí que a tragédia se insinua, sem violência, quase que sob os panos. O sofrimento não vem de eventos, nem mesmo do abandono: ele se torna, dolorosamente, parte da difícil existência das crianças, pois eles podiam suportar muitas coisas (uma mãe ausente, a prisão no apartamento, a viagem dentro das malas), e quando fica difícil suportar algo, quer dizer que até mesmo a alegria intrínseca da infância foi varrida pelas dificuldades. Aí a costumeira seriedade de Akira ganha outro sentido, engrandecendo ainda mais sua performance. A trilha sonora, a princípio orgânica e quase imperceptível, acaba ganhando força, apresentando-se com força no final e deixando claro seu tom triste, sutil porém pesaroso, algo perfeito para o filme. A fotografia também mostra o clima correto do filme, culminando numa bela cena: Akira e a amiga Saki, depois de uma experiência desoladora, descem uma ponte inclinada com o sol nascendo ao fundo. Quanto mais eles descem, mais o sol se esconde, mas ele está subindo ao céu, por isso nunca o vemos inteiro, mas nunca deixamos de vê-lo. É a parca, presente porém dolorosa esperança na qual vivem as crianças, um tipo de acomodação imposta, que dói - e muito.

A única tragédia real do filme é na verdade um evento corriqueiro, que poderia ter sido reparado ou até mesmo evitado pela presença de um adulto ali, e isso talvez torne o acontecimento ainda mais triste - uma agonia reforçada pelo brilhante simbolismo do aeroporto. Acertando ainda na caracterização da mãe, interpretada por You com uma irresponsável simpatia (o que não deixa de ser algo desprezível para uma figura materna) e com uma voz violentamente rouca, ao mesmo tempo que afável, "Ninguém Pode saber" se mostra um conto terno e realista, bruto e simbólico, da vida como ela é. É o Japão contando histórias, algo que os orientais fazem de forma única.
Nota 10.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Climas (Iklimler)

O filme anterior de Nuri Bilge Ceylan parece mais radical ainda que o seguinte "Three Monkeys". Apostando num jogo de cena simples, mas significativo, o diretor parece encontrar sua razão de ser nos intermináveis closes no rosto dos personagens (os principais interpretados por ele mesmo e sua esposa, Ebru), apenas murais petrificados do turbilhão de emoções que passa dentro de suas mentes. A comparação da mulher com uma pilastra é perfeita, pois ela é isso, um totem, seu rosto apenas uma escultura bela entalhada em mármore sólido. Dentro dela ocorrem muitas coisas, e Nuri apenas mostra isso, sem explicar o que exatamente se passa. Os olhos aqui têm o sentido de janelas da alma, não no sentido Ralph Fiennes de atuar, mas os personagens fitam tanto o vazio, e uns aos outros, que a conexão é feita da mesma forma.

É difícil manter essa linha de atuação inabalável, mas o elenco consegue, com expressões absolutamente vazias (excetuando-se a voluptuosa Serap e a sensualidade com que seu olhar e o de Isa (Nuri) se conectam). O estilo das atuações é estranho, e ocasionalmente artificial, como a cena em que Bahar em que Bahar (Ebru) chora sem mover um músculo da face - pura revolta autoral, não dá para chamar isso de direção de ator. Mas normalmente funciona, pois o filme se foca nas reflexões pessoais, todas fortemente influenciadas pelo clima (o metereológico mesmo) e absolutamente internas. Ver "Climas" é como assistir a uma pessoa pensar na vida, é como fitar um rosto estático enquanto infinitos questionamentos trafegam por trás dos olhos dela. Chato pra caralho, e sublime, pois o apuro estético de Ceylan, embora também seja aqui e ali artificial e auto-indulgente, cria imagens assombrosas, e suas técnicas de filmagem injetam profundidade e inteligência ao filme.
Nota 8.

Os Últimos Passos de um Homem

Estarrecedor. Há muitos jogos poderosos nesse filme, que não falha em ajuntar suas partes para formar um todo bem-feito. O duelo de interpretações de Sarandon e Penn é o principal, através de diálogos inteligentes, uma direção sutil e sensível (uma cena chuvosa, dentro da prisão, que NÃO é um momento bombástico? A-do-rei) e duas interpretações de cair o queixo. Penn cria um retrato marcante do condenado, dando-lhe apenas os traços de humanidade que o roteiro (sabiamente) permite a Matt, sempre caminhando a passos lentos para o inevitável. Sarandon, por outro lado, cria uma figura igualmente trágica mas não por isso fraca, oferecendo fibra e dignidade à personagem - algo imprescindível para o filme. No entanto, ela sofre com seu excesso de bondade, apresentando-se solícita e vulnerável inclusive quando isso a coloca em situações humilhantes.

E isso não muda. Essa não é uma história de revolução pessoal. Há uma moderação maravilhosa no tocante às mudanças que ambos os personagens sofrem com a convivência mútua, e tampouco espere um final surpreendente: não há nada de inesperado na conclusão, e isso é o diálogo perfeito com a inevitável execução de Matt. O outro jogo intenso do filme é entre uma perspectiva e outra, pois somos manipulados, sim, mas por ambos os lados, dando um equilíbrio moral que resulta do desequilíbrio emocional - o resultado, arrebatador, são lágrimas constantes, seja a fonte do pranto o assassino ou a vítima. Matt é visto como uma vítima também (a cena que evita a comparação com Jesus Cristo é genial), mas isso não é moral ou ético, é meramente humano. Uma pessoa com uma data de morte marcada sofre e não é errado sentir pena, e mais ainda de Matt, que revela algo mortificante à conselheira, algo que não o redime de seus crimes, mas que comprova a dimensão da pena que ele pagou. Contando ainda com uma fotografia precisa de Roger Deakins e uma trilha sonora magnífica, pontuada pelo incrível Eddie Vedder, este filme é um primor moral, humano e cinematográfico.

Nota 9.

Leonera

Situado numa 'leonera', instituição carcerária em que mulheres grávidas são mantidas desde a prisão até certa idade do filho, “Leonera” conta a história de Julia. No que a dela difere da das outras, que também incluem crimes, partos durante a pena e sofrimento? O foco está no personagem por alimentar e conduzir a narrativa de forma brilhante. O filme funciona graças a um tripé composto pela trama em si, pelo desenvolvimento de Julia e por Martina Gusman, em estado de graça como a protagonista. Embora o plot trate da linha temporal e dos fatos, não falta excelência nessas funções menos ambiciosas. Embora caminhe de situação para situação, às vezes com elipses de muitos meses, o roteiro nunca falha em dar fluidez e unidade ao relato. Os saltos cronológicos não são amenizados, como fica claro na cena em que a câmera foca uma parede apenas para que a barriga de Julia, muito maior que minutos antes, irrompa antes mesmo da mulher. Os cortes secos (às vezes seguidos de uma tela negra) também servem para denotar passagem de tempo, e os eventos mostrados pelo filme tornam tão necessário esse deslocamento temporal (eventos como penosos trâmites judiciais, a proximidade com Marta, o crescimento do filho Tomás) que é exatamente deles que se originam as elipses.

Por outro lado, a atuação de Gusman se torna crucial para cimentar esse ritmo do filme, usando sua fabulosa profundidade dramática para complementar a narrativa. Seu rosto é a força-motriz da performance, pois seus grandes olhos parecem estar sempre à beira ou recém saídos de prantos. É a forma sutil e maravilhosa de a atriz mostrar para o espectador que, embora o filme foque em certos momentos em detrimento de outros, não foi mais fácil viver o que não foi mostrado. E com as elipses adotadas, o roteiro dá o feedback necessário para que o sofrimento da protagonista não seja nunca subestimado. Genial. Similarmente, a relação de Julia com sua condição é explorada de forma cuidadosa, mas não arrastada. Se num primeiro momento ela rejeita (uma rejeição quase plácida) os beijos de Marta, num segundo, ela já aceita as carícias da mulher como um meio de conseguir contato e ternura em meio a um ambiente instável e degradante, já que, mesmo em cenas mais amenas, o horror de ter de carregar ou criar um filho numa prisão está latente. O tom do filme é coerente com esse incômodo subjetivo, pois evita uma abordagem que poderia ter sido muito mais pesada para usar de sutilezas em seu lugar – embora a insuportável cena dos socos na barriga sejam um acerto também. Esse bom uso tonal é notável no primeiro dia de escola de Tomás, em que Trapero impõe uma canção de roda à cena: isso não é só um gracejo, como também uma permissão dramatúrgica, um momento de felicidade que Julia parece não conseguir saborear.

No entanto, o tom sutil e azeitado do filme, assim como o ocasional sofrimento e a uniforme amargura da protagonista, são deixados de lado de repente. Em um dado momento, Julia deixa de ser uma lamentadora e se torna uma lutadora (em todos os sentidos), com a maternidade aflorando em sua vida de forma feroz, selvagem, devastadora. O roteiro dá sinais dessa mudança brusca? Pouquíssimos para se levar em conta. Então essa quebra de tom é por demais discrepante. Ou não? Na grande jogada do filme, uma jogada em que atriz, diretor e roteirista se unem com força explosiva, “Leonera” cria uma das quebras de tom mais interessantes dos últimos tempos. Somos levados a crer que a discrepância para com a protagonista ocorre quando ela começa a espernear e cometer atos violentos... mas há o assassinato. O assassinato não resolvido. Sem nenhum tipo de explicação direta, o roteiro dá um vislumbre do que realmente ocorreu na fatídica cena do crime. A quebra dramatúrgica não ocorreu com aquela visita da mãe de Julia, e sim quando esta entrou "em torpor. Remetemos" st="on">em torpor. Remetemos à cena em que ela chora, em submissão à triste realidade, ao lembrar do crime do qual fez parte. É a submissão que vai liderar a maior parte do filme, que continua, inclusive, nos primeiros dias com Tomás, e até nos encontros com Ramiro.

Ramiro deixa mais dúvidas em relação ao crime (assim como o personagem do advogado, explorado de forma inteligentíssima), que, afinal, importa menos como mistério do que como esboço da personalidade de Julia. Talvez a real culpa, o real responsável pelo crime, seja irrisório. A serventia dramática do assassinato é dar visibilidade para uma faceta de Julia que está latente desde o começo do filme – algo reforçado pelo fato de as primeiras cenas serem meramente visões do cotidiano da mulher, algo que pouco revela sobre ela – pois, independente de quem pegou a faca ou não, sabemos que Julia agiu no mesmo temperamento com que invocou uma rebelião em sua prisão. Sua relação com a mãe, por sinal, apenas deixa sua hostilidade velada ainda mais em evidência – ao que a talentosíssima Elli Medeiros mostra todas as maneiras, igualmente distantes, pelas quais ela trata a filha. Santoro faz um papel também excelente como Ramiro, traçando um adequado paralelo (os olhos vermelhos) com Julia e fornecendo uma ternura que prontamente justifica a postura diferenciada da mulher. Laura García, fechando o impecável elenco, é de uma ternura bruta, impaciente, e torna-se uma sutil pista para a personalidade real da protagonista – não à toa, elas vão cada vez mais vencendo as diferenças.

Como nem tudo é perfeito, é importante citar que a surpresa final é mais previsível que ganhar meia de aniversário, e acaba apontando um pouquinho na direção de uma maternidade romântica, num tom condescendente que não encontra muita ressonância no resto do filme – resumindo, um final mal concatenado. Mas isso não tira o brilhantismo desse primoroso trabalho cinematográfico, em que a aliança entre todos os elementos que compõem um filme é perfeita. E não falta rigor regencial, pois os planos espetacualres (note a cena de natal, em que os fogos de artifício se elevam de detrás dos muros da prisão), as câmeras inspiradíssimas e a sabedoria cênica de Trapero não precisam nem ser procuradas.
Nota 9,5.

Vicky Cristina Barcelona

Woody Allen, o maior estudioso de personagens neuróticos da história do Cinema, aparece agora com mais uma pesquisa cuidadosa e dedicada. Em um filme nunca menos que histérico, histérico até nas sutilezas, Allen vai fundo no tema, sem medo de focar-se na neurose de cada um dos personagens. Os outros assuntos são abordados de modo igualmente detalhado, mas como conseqüências desse que é a grande força-motriz do cinema do baixinho. A estrutura temporal da projeção é pensada sabiamente, sempre focando no personagem que está com mais neuroses, criando uma alternância que só aumenta o interesse nas criaturas bizarramente reais da história. O jeito que Allen usa para conversar com o espectador é conciso e afiado, um modo paradoxalmente crítico e conivente, e a formação de um envolvimento e um diálogo interior é automático. Talvez ele seja um dos autores mais pessoais do cinema, comparável, na literatura, a Charles Bukowski, tamanha a familiaridade com os temas.

O diferencial não é esse, no entanto, pois o diretor é famoso por esses exatos motivos. O diferencial é como, a partir de um traço absolutamente histérico de personalidade, ele consegue criar um leque de possibilidades que engrandece cada um dos personagens. Vicky, a certinha anti-impulsividade, recebe a visita de sentimentos que lhe são irracionais, e o modo como o filme constantemente infere o quão saborosa seria uma mudança na vida da mulher é o principal pilar da inspirada performance de Rebecca Hall. Já para Cristina, histericamente liberal a princípio, as coisas mudam de figura, conferindo-lhe um ar errático ao longo do tempo, tirando-a da felicidade por motivos desconhecidos, talvez a própria mania do ser humano de não conseguir conviver com felicidade. Enquanto Cristina não percebe isso, e acha que simplesmente não quer a relação que encontra com Juan Antonio, Vicky sabe bem onde não está a felicidade, mas tem medo de buscar algo maior. É a balada de duas mulheres que vivem sob amarras, e um ode às escolhas alternativas – e é onde Penélope Cruz surge com intensidade.

Sua Maria Elena vem como um teste à personagem de Cristina, uma confrontação do estilo de vida que a americana teoricamente anseia. De forma nada sutil, Allen vai explorando o advento de Maria Elena na vida de Cristina, primeiro deixando-a irritada, e depois evoluindo a uma relação azeitada, tanto do ponto de vista amoroso, pois é um affair libertador, quanto do ponto de vista narrativo, pois é muito bem construído e sensual à beça. Maria Elena ganha força maior ainda quando Cristina perde o equilíbrio, dando pluridimensionalidade à relação: por mais bonita e redonda que seja, a fragilidade vem à tona quando Cristina hesita. Quando Vicky se aventura mais uma vez naquela loucura, o resultado é violento e o mais histérico de todo o filme, com o roteiro dizendo muito sobre a personagem. Maria Elena é a catalisadora da maioria dos conflitos do filme, e Penélope Cruz encarna a demente com tamanha garra que ela consegue transpor para a tela toda a importância narrativa de sua personagem.

Contando ainda com um sensualíssimo Javier Bardem (esse cara é o maior psicopata do cinema recente? Meu Deus), uma trilha sonora charmosa ao extremo e uma fotografia que só ressalta e beleza de Barcelona, que surge muito mais romântica até que Paris, “Vicky Cristina Barcelona” é um primoroso retorno à forma do Woody Allen gênio das comédias românticas.

Nota 9.