Missão: Impossível
Massa bagarai. O roteiro deixa você prever as reviravoltas alguns minutos antes, e paree ser intencional, pois isso raramente enfraquece o ótimo ritmo do filme. A direção descolada de DePalma, com uns vícios oitentistas divertidíssimos e câmeras bacanas, dá um puta charme - mas a tensão não se perde, pois a famos acena em que Ethan Hunt se pendura por um fio é uma aula de suspense. Cruise, bonzinho, encabeça um elenco foda com Redgrave se divertindo horrores, Ving Rhames todo blasé e fodão, Jean Reno e seu personagem maneiro de sempre e Voight... bem... canastra. As cenas de ação são ótimas, mas não sabotam o filme atraindo atenção demais. Elas privilegiam o suspense e as intrigas, o que o filme tem de melhor, algo que ressalta as poucas e boas cenas de ação. O plot parece copiar tudo que já foi feito em termos de filme de espionagem, mas o filme faz isso com uma propriedade e um senso de diversão pura que dá gosto, justificando a ascenção desse sub-gênero perante o gosto do público.
Nota 8,5.
[•REC]
Com a boa safra de filmes de terror espanhóis, vem [•REC], um filme muitíssimo bem conduzido que já parte de um pressuposto interessante: não quer ser um exercício de estilo, como A Bruxa de Blair e Cloverfield. É um puro exercício de medo. Os diretores Balagueró e Plaza têm a única função de assustar, e não prometem nada mais para o espectador. Nada de personagens profundos, conflitos bem construídos (embora façam falta) ou roteiro complexo. A história se desenrola dentro de um pequeno prédio, e os roteiristas fazem bem em apenas fornecer cenas arrepiantes e situações tensas. Para manter o realismo documental, os personagens se dignam a entrar em desespero, gritando e esperneando, mas o roteiro não se preocupa em ir muito além, para não perder o foco.
Clichê atrás de clichê seguido de clichê, o filme tem uma narrativa quase nula, e não raro é previsível. O grande trunfo, porém, reside aí. [•REC] não subestima o espectador, como se ele não soubesse o que acontecerá em seguida. Os diretores se aproveitam da previsibilidade do "BU!" de forma brilhante, pois sa tensão vem de sabermos perfeitamente que tomaremos um susto, é só esperar. Talvez a ausência de trilha sonora anule a pompa que Hollywood costuma dar a esses sustos clichês. E quando os sustos não são previsíveis, sai de baixo, porque cenas como a do corpo caindo (não é um spoiler, eu ouvira falar da cena e voei da cadeira quando ela aconteceu) são marcantes, e as trombadas com a zumbizada justificam toda aquela correria e gritaria. Por sinal, a origem dos zumbis é uma boa alternativa para a velha e desgastada fórmula, e, vai, alguns clichês de direção e roteiro conseguem ser evitados - mas só quando isso aumenta a tensão.
Contando com uma ocasional, quase acidental beleza estética, um elenco eficientíssimo em sua parca demanda, e efeitos sonoros de gelar a espinha, [•REC] funciona perfeitamente como veículo de tensão e medo. Em tempo: a última aparição me lembrou um filme de José Mojica Marins pela simplicidade da macabra figura.
Nota 8.
A Princesa de Nebraska
Pequeno grande filme de Wayne Wang, "A Princesa de Nebraska" é a história de uma jovem chinesa que vai para os EUA fazer um aborto. Contada assim, parece ser uma chupação do maravilhoso "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", mas Wang toma um rumo diferente, especialmente no tom. Sasha é uma turista vivendo numa realidade relativamente fácil, e o aborto, mesmo sendo focado de forma atenta, é visto sob outro viés. As "aventuras" de Sasha nos EUA são mote para as várias ponderações sobre o filho que carrega, sobre o pai e sobre a vida. Visto apenas de relance, como uma memória distante (algo que o roteiro trata de justificar em diálogos), o pai do filho, um belo amigo da protagonista, é apenas um elemento da narrativa, mas é partindo dele que boa parte da curiosa estética "câmera de celular" se produz.
Filmado de forma quase amadora, com movimentos de câmera e zoom-ins escandalosos, o filme também explica essa escolha: a cena do jantar mostra que a visão dos acontecimentos é sempre deturpada, amadora, e que ver isso de forma documental e, mesmo assim, artificial, é a mais adequada. No entanto, conseguimos nos envolver com a história, graças em boa parte aos esforços sutis de Li Ling no papel principal, uma figura difícil de simpatizar, mas agradável como um todo, e sempre interessante. Ok, o roteiro às vezes se esforça para criar situações chamativas, resultando em vários momentos arbitrários em tom, mas tudo que acontece é coerente com a protagonista. Também é louvável a inclusão de sutis simbolismos (o balão, a unha), a complexidade da relação de Boshen com Sasha e o pai da criança, Yang, e a desses personagens secundários em si.
Usando ainda de efeitos sonoros altíssimos (para ressaltar como a informação nos chega de forma apurada, e mesmo assim falha) e uma trilha diegética, o filme culmina num quase-número musical, uma licença poética em todos os sentidos, pois o filme se permite um tom lírico inexistente até então. A música é "Hope there's Someone", de Antony and the Johnsons, e o efeito da sublime cena é arrebatador. Uma jóia bruta, valiosa como é.
Nota 8,5.
Platoon
Um poderoso e pesado filme de guerra. Aqui há metonímias (meu recurso cinematográfico preferido) que achei incríveis, saindo do velho tema/formato. "Platoon" é as intensas cenas de batalhas, pois nelas está contida a maioria dos elementos do roteiro. Os conflitos internos de cada um transbordam, os externos ganham uma dimensão física, bruta, e muitas facetas de certos personagens caminham para uma apoteose violenta. Não só são muitíssimo bem filmadas as cenas de ação (é injusto resumi-las assim), como a estética deas dá ainda mais profundidade. O conflito final, em que todos os personagens que sobreviveram são retratados de forma extrema (e coerente), é um jogo de luzes e sombras estranhos, desorientadores, que causam medo, dúvida e, sim, maravilhamento. O visual é macabramente bonito, mas também instavelmente tenso, o que adiciona uma porção de reflexos narrativos à cena.
Outra comparação feita pelo filme é a da trajetória de Chris com os dois Sargentos em guerra interna, Barnes e Elias. Sheen começa frouxo, distante da imagem de ambos os veteranos. Com o tempo, o humanismo que Elias consegue manter no campo de guerra aflora no jovem, mas, nos minutos finais, é Barnes que ele espelha. Uma pena que Sheen só esteja bom no papel, não comprometendo graças a um personagem riquíssimo e, claro, a duas atuações primorosas como base, Dafoe e Berenger como Elias e Barnes. O primeiro protagoniza a imagem mais famosa do filme, e escapa de forma brilhante da mesmice militar vista no cinema; o segundo, por outro lado, mantém a imagem bruta do homem de guerra, mas de uma forma selvagem (sua postura é quase anacrônica, remetendo a guerreiros bárbaros), tirando totalmente o glamour de sua autoridade.
O filme tem suas redundâncias, seus tropeços e suas inconsistências, mas usa a linguagem cinematográfica, seja no roteiro ou na direção (Stone se prova nas já citadas cenas de confronto e em images que ele torna icônicas), de forma inteligente, e merece boa parte da atenção que recebe.
Nota 8,5.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
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