Depois do style da série do espião britânico, com o memorável “Cassino Royale”, houve uma cisão. Ele não era mais o mesmo: foi adicionada outra camada narrativa ao personagem, que, pelo bem e pelo mal, tornou-se mais rico e mais profundo. “Quantum of Solace” dá continuidade à idéia concebida pelo filme anterior, adotando um formato igualmente conceitual. Enquanto o segundo tinha pouca ação, para dar mais foco à construção de personagem, o primeiro surge como uma orgia de adrenalina incessante, o que não deixa de ser uma opção perigosa, pois perder o fio da meada em meio a tantas perseguições é uma pandemia do cinemão atual. Mas o roteiro, escrito a seis mãos, não decepciona.
Conseguindo a façanha de, numa das mais curtas fitas de Bond, incluir pelo menos três elementos distintos, o texto faz jus a tudo que fez o agente famoso, e o algo-mais que “Cassino Royale” injetou à série. De um lado temos as cenas de ação, que provavelmente representam considerável tempo de projeção, e de outro, temos a trama político-econômica envolvendo Dominic Greene (Mathieu Almaric). Se no início o fluxo de informações consegue prender a atenção, mais tarde, boa parte da trama é explicada tintin por tintin, deixando inclusive os mais lerdos (lê-se: “eu”) totalmente a par do que está acontecendo, talvez para mostrar como o roteiro é redondinho (e quadradinho). Para os que têm uma capacidade um pouco mais afiada, porém, o didatismo deve ser a palavra-chave, pois não há nada que o filme não explique de forma segura. Ok, a trama é interessantinha, tem boas sacadas e, vai, ganha pontos por usar de assuntos ambientais, políticos e econômicos sem se exacerbar no comentário. É só um elemento do plot, nada mais, e assim é tratado.
A construção do personagem, por outro lado, apenas pontilha a narrativa, e a grande surpresa é que mesmo com um foco bem menor, James ganhe uma profundidade similar à do primeiro filme da retomada. Através de pequenos diálogos (inclusive alguns bastante trôpegos) Bond vai tomando forma, limpando-se de manchas e se dilapidando ao longo de sua experiência, fazendo o terceiro filme de Craig, talvez, o mais esperado – para onde ele vai agora, sem estancar nem retroceder? Para os impacientes (“Ele não é Bond”), há inclusive a esperada cena do martíni (menos óbvia do que eu esperava), que dá uma deixa para muitas próximas – aqueles que querem ver o agente em sua glória completa vão ter que esperar um pouco, mas, até agora, essa espera vale a pena. Para finalizar, claro, há a belíssima referência a Goldfinger, que até os fãs mais cegos têm de encarar como uma escolha condescendente e absolutamente respeitosa ao clássico personagem.
Forster, mais uma vez, mostra uma eficiência ocasional, com uma direção de atores eficiente e uma porção de planos interessantes. Infelizmente, ele cai em uma redundância triste ao mostrar os efeitos da seca na Bolívia assim que Bond e sua pussycat descobrem o plano desértico de Greene. Mas seu grande problema é a condução de cenas adrenalinescas. Talvez intimidado pela presença do celebrado Dan Bradley para coreografar a ação, Marc opta por câmeras tremidas, e põe tudo a perder. Lembrando o sofrível “Controle Absoluto”, algumas seqüências perdem força graças a essa síndrome de Quero-Ser-Greengrass, pois tudo fica confuso e aleatório num diretor que, em seus melhores momentos, usa câmeras fluidas e suaves (vide as boas cenas aéreas do ruim “O Caçador de Pipas”). Bradley não teria seu trabalho sabotado por um trabalho de câmera mais limpo, e o enorme pecado de Forster é não perceber isso. Mas as set pieces não são desprovidas de intensidade: as duas primeiras perseguições são bastante empolgantes, mesmo sem uma visibilidade adequada (a nos telhados de Siena é uma exceção, pois é bem filmada), e mesmo as piores cenas têm o ponto positivo de destituir de glamour os acidentes, deixando mortos, feridos, capotados e explodidos para trás. Mais uma vez, a ação se apresenta conceitual – note como, na cena inicial, a única capotagem filmada com atenção é uma que atrapalha o caminho de Bond na pista de baixo.
O elenco continua bom, e talvez até mais, pois Olga Kurylenko, a Camille, empresta um charme e uma emoção que, curiosamente, deixam Eva Green e sua Vesper para trás. O francês Almaric dá uma imponência formal a Greene, usando a ameaça de formas sutis e quase distantes, já que ele raramente suja suas mãos – e é uma ótima escolha do ator dar gritinhos patéticos quando se envolve em uma cena de ação de verdade, porque o herói está claramente inapto para lutar contra Oddjobs da vida, e porque o vilão tem uma motivação diferente na trama . A Dama Dench dá um foco imprescindível a M, fazendo suas poucas cenas momentos marcantes, entendendo o quão importante sua personagem é para Bond, e vice-versa. Passando pelo caricato Joaquín Cosio como o General Medrano (provavelmente influenciado pelo marido violento de “A Favorita”), o filme encontra seu eixo em Craig. Ele faz Bond vibrar, e mais, faz o espectador vibrar junto, não só se entregando de corpo às pancadarias, como de alma às emoções mais internas do agente, mas de modo fechado. No maior momento dramático do filme, ele denota seu sofrimento com um mero apertar de olhos, totalmente destituído de emoção – apenas um traço do que ele está sentindo. Talvez ainda mais brutal que no filme anterior, o protagonista passa de brutamontes para fanático, fervoroso, mudando a abordagem do personagem de modo brilhante.
Com suas falhas corriqueiras e qualidades corriqueiras, o filme alcança um saldo até que positivo, pois apresenta algumas qualidades que sobressaem e o elevam um pouquinho da trivialidade.
Nota 6,5.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
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