segunda-feira, 30 de março de 2009

A prisão perfeita

Atualmente, está em voga o cinemà verité em uma de suas encarnações mais extremistas, resultando em sub-gêneros famosos por exageros baixando o tom para uma frieza policial, na crua e aguda intervenção do realismo em retratos cinematográficos da criminalidade e até mesmo no novíssimo estilo seco da mais esfuziante e comercial franquia do Cinema. E enquanto Gomorra é um exemplo forte e ao mesmo tempo artístico de como essa pequena influência está se dando na produção recente, aquele que se firma como o melhor dessa safra é sem dúvida o brilhante Entre os Muros da Escola.

O filme, através de um roteiro milimetricamente planejado de forma a não parecer que o foi e uma direção que corrobora essa proposta de forma relativamente solta, consegue construir um imaginário ideológico e visual que primam pela abrangência das especificidades. Não há nada parecido com imposição de discussões raciais, sexuais, sociais, étnicas, econômicas ou políticas. Tudo é engendrado para criar um conteúdo de formato irregular, sem linhas narrativas específicas cobrindo cada desentendimento ou discordância temática: uma grande pasta de choques entre pessoas, choques gratuitos e arbitrários que, mesmo formando desavenças duradouras entre os alunos, são vistas apenas nas manifestações em classe, cuja turma – que revela uma conexão externa através de fotos de celular – está notavelmente distante de seu docente. É forte ver como François poda os alunos bem quando uma abertura emocional mais acessível estava quase aflorando, uma quase imperceptível negação à dramaturgia convencional que ainda se repete mais vezes durante a projeção.

Embora óbvia, a escolha de focar-se nos momentos de aula é acurada, inclusive quando o roteiro resolve “dançar” por reveladoras cenas de bastidores que alargam ainda mais as veias de significado da realidade que Cantet busca mimetizar – ao que dizer isso só se torna justiça quando a sutilíssima edição é citada como grande pró. E não apenas na perfeição da mimese o filme se comprova sublime: a motivação que leva a essa escolha estética é de tirar o chapéu.

A veracidade que o filme consegue imprimir em cada um de seus personagens é tamanha, e tão inegável, que fica claro que nenhum tipo de documentário conseguiria capturar tanto e tão sincero material humano. E passa longe de Cantet adotar aquela definição romântica de “humano”, a adjetivação que busca nessa palavra uma qualidade altruísta e bondosa. Aqui, “humanos” são todos, o que quer dizer que todos são arrogantes, estúpidos, violentos, auto-indulgentes, obtusos, injustos, limitados, confusos, e que agem quando deviam falar, falam quando deviam agir, e ainda assim erram grosseiramente tanto no falar quanto no agir, resultando num caos que deixaria Dante de cabelos em pé. O total sucesso do filme em sua proposta é confirmado quando todas as questões sociais, das étnicas às sexuais, se tornam “compreensíveis”, com tanta falta de entendimento entre aquelas pessoas – é possível enxergar as disparidades pessoais se amontoando através da História e chegando ao ponto atual de quase natural diferença entre grupos.

Ao vermos esses “estereótipos” (palavra pejorativa que não se encaixa num filme que já parte de personagens baixíssimos em conceito moral e tampouco faz sentido pelo formato narrativo) e conflitos apenas durante a classe, fica claro como as pessoas têm a capacidade de desestabilizar o que é criado para funcionar. E é triste constatar que as coisas funcionam, de fato, salvo o detalhe de que há gente nos dois lados do sistema. A relação aluno/professor também não pode ser vista com esperança alguma, por se tratar de um choque de vontades muito bem ilustrado, e tampouco se deve esperar sensatez dos diretores da escola. Muito menos pode o espectador afastar os paredões do abismo entre a escola pública da França e a brasileira, já que o filme deixa claro que sua instituição realmente é boa em teoria, e posta em frangalhos devido “apenas” a todos que usam seus corredores. O que, claro, só torna a ineficiência prática ainda mais desolador.

E mesmo que possua traços “humanos” (na concepção arrasadora do filme), François não deixa de ter qualidades inegáveis. E, mesmo assim, seus valores são constantemente postos em cheque sem piedade, como que para ressaltar que, talvez, os muros da escola sejam tão perfeitos que suprimem a necessidade de nossa espécie de ter numerosos defeitos. Logo, a prisão inferida no título não é o cárcere físico e psicológico daquelas pessoas imperfeitas, e sim a de um ideal perfeito que sufoca o que há de mais básico na existência do Animal Mais Inteligente do Mundo. O final tem uma dose relativa de romantismo, que não combina com o que foi mostrado, mas, além de François ter aplicado um golpe emocionalmente mais certeiro (distribuir os trabalhos), as cenas finais mostram o palco da caótica experiência e, apenas por sons, jogam ao terceiro plano a possível perspectiva de conciliação – que, claro, tem que se dar com a inescapável rivalidade de um esporte.
9,5

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