Os rostos se torciam em incompreensíveis espirais de pele avulsa. As mãos agarravam umas às outras como se algo as puxasse para baixo. Nas faces, apenas uma boca escancarada e cavidades profundas que, provavelmente, já tiveram olhos. Não se podia olhar aquilo por muito tempo, pois causava uma inescapável confusão mental. E, quando se percebia a verdadeira essência da imagem, causava desconforto. Fernanda estava olhando há certo tempo, e, depois de ler algo à sua direita, deu a volta pela longa parede branca e viu o que estava do outro lado.
Havia mais uma infinidade de coisas a ver, mas nenhuma tão impressionante como a anterior. Eram apenas manchas de acrílico, borrifos de óleo, trapos costurados, cores ou muitas cores, em oposição à morbidez cinzenta e escura da tela do outro lado.
Quase hipnotizada de novo, Fernanda sentiu uma mão em seu ombro nu, que o acariciou e levantou a alça de sua regata azul. Virou-se e viu sua amiga Renata, olhando-a com uma expressão estranha.
- Não está com frio, só usando isso aqui? – perguntou.
- Ainda não. Mas esse ar condicionado está cada vez mais forte. Você está com uma cara de inútil. – Fernanda não conteve um risinho. - Que houve?
- Nada. Só estou um pouco pasma com tanta maluquice nessa merda aqui. – respondeu, e começou a rir.
- Ah, por favor. Você já me disse isso um milhão de vezes, e eu ainda duvido que seja verdade.
- Mas é. Olha aquele quadro ali, aquele perto do extintor. Viu?
- Sim, e já tinha visto antes.
- O que diabos você viu naquilo? Eu só vi um monte de casinhas! Nem tem uma velha gorda pendurando os lençóis no varal! Se tivesse, talvez eu iria achar bonito – ou bem-feito.
- Acho que você não quer ouvir mais uma das minhas explicações sobre a essência e significação de um quadro, não é?
- Bem, se eu puder te dar uma aula de Yellowcard mais tarde...
- Está bem, já entendi. Que bom, porque eu não entendi droga nenhuma daquele quadro. Mas me deixa ficar só mais um pouquinho, por favor!
- Lógico! A vista é sua, então não vá reclamar de dor nos olhos quando voltarmos, hein?
- Não se preocupe. Eu sofro em silêncio, se sou tão irritante.
- Ainda bem que você é compreensiva.
Ambas riram-se por algum tempo, e Renata virou-se e foi para o banheiro (‘’Seja onde for’’, pensou), balançando seus cabelos castanho-escuros nas costas. Fernanda continuou observando a profusão de cores das telas do lituano. E, em pouco tempo, já estaria com a vista cansada. Afinal, estava lá desde as duas da tarde; no momento, seu relógio marcava cinco e quarenta e sete.
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