quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Mostra de Cinema Brasileiro Contemporâneo

Em São José, teve um pequeno festival com filmes novos do mercado nacional cinematográfico. Entre as atrações, O Céu de Suely (que infelizmente perdi), O Cheiro do Ralo, Cão sem Dono e Crime Delicado. Vi os três últimos – já tinha visto O Cheiro do Ralo - , e, infelizmente, o que eu já vira foi o melhor da noite.

Crime Delicado é um filme que poderia se destacar no mercado brasileiro de cinema, mas acaba prejudicado por deslizes medonhos.

Para começar, Marco Ricca. Nunca apreciei seu trabalho, e nesse filme ele se superou: enquanto devia ter aflorado o cinismo e a frieza de seu personagem, ele não conseguiu mais que se deter numa expressão fixa, que não muda o filme todo, os olhos vagos e a boca fechada. Mesmo quando ele diz algo, soa artificial, numa voz sussurrada e irritante. Felizmente, ele é o único elo fraco do elenco. A estreante Lílian Taublib faz um papel sensacional, cheio de emoção e intensidade, e fica num equilibrado meio termo dramático, longe da nulidade expressiva (vide Ricca) e do exagero teatral. Felipe Ehrenberg também faz um papel difícil, o do artista-ídolo de Inês, e convence, especialmente na sensível cena em que ele cria um de seus quadros.

A discussão que “Crime Delicado” faz sobre a arte, que o próprio Antônio (Ricca) chega a discutir a certa altura da projeção, é o que dá a força narrativa à história. Quando a dúvida sobre os limites da arte é levantada, o filme faz que vai responder, mas deixa a resposta um pouco vaga, afirmando que ela tem, sim, limites, mas que Campana (Ehrenberg) ainda não os ultrapassou. Na intimidade, ao vê-lo criando com sua modelo, ambos nus, em posições escandalosas, a noção dos limites fica clara: Inês o respeita tanto pois ele tem respeito semelhante para com ela. Campana é um artista acima de tudo, acima até mesmo da luxúria, e é isso que a garota venera nele. Por outro lado, essa mesma atitude respeitosa é totalmente deixada de lado por um Antônio bêbado, que diz querer proteger Inês do artista “aproveitador”.

Embora o roteiro seja feliz em mostrar os ricos comentários do filme, a edição escabrosa quase arruína tudo o que fora escrito com tanto esmero. Brant picota o filme de maneira horrendamente irregular, separando-o em vários capítulos, estilos visuais e climas que se chocam violentamente. A idéia de mostrar uma peça de teatro seguida da crítica de Antônio é boa, mas é apenas usada na primeira metade do filme. Seria mais elegante espalhar um pouco mais as cenas similares, para dar fluidez à idéia. Do jeito que ficou, pareceu um modo de deixar o filme mais longo. Técnica similar foi usada para a criação de Campana: uma única cena, de vários minutos de duração, explica todo o processo criativo dele, revelando tudo o que há para ser revelado, de uma vez.

Mas Brant realmente desce de nível quando muda a fotografia para um tosquíssimo branco e preto, de um take para o outro, revelando sutileza visual zero e uma falta de senso de ridículo tamanha, já que o (não) uso das cores é de um amadorismo tremendo.

Só Ehrenberg, Taublib e as interessantes discussões sobre os limites da Arte salvam esse filme da irregularidade e da falta de sensibilidade cinematográfica que Brant demonstrou. Embora seja ligeiramente melhor que seu próximo trabalho, “Cão sem Dono”, “Crime Delicado” tem uma boa parcela de defeitos, que só não afundam a produção pois ela também apresentas qualidades notáveis.

Nota: 6,5

Cão Sem Dono é um trabalho despretensioso do mesmo Beto Brant do filme acima. Infelizmente, a qualidade deste é ainda menor.

Contando com uma premissa interessante, que conta a vida de um jovem desgarrado e sem futuro, a proposta acaba se tornando equivocada e mal conduzida, salvando-se do fracasso total apenas pelos ótimos atores e por um par de boas cenas. Estas são a do poema, de uma naturalidade assustadora, e a melancólica revelação do interesse amoroso do protagonista.

Fora esses bons momentos, o filme se arrasta numa narrativa oca, frágil e extremamente desinteressante. É o tipo de fita que não promete nada no começo, não cria nenhum conflito e fica até o fim da projeção nesse ponto morto, sem desenvolver uma história e sem criar situações interessantes para manter a atenção. É como “Casos da Vida” na tela grande.

A idéia de Brant, com essa história anêmica, foi mostrar como a juventude atual está perdida e sem perspectivas, porém ele acaba exagerando na metáfora e o próprio filme se torna perdido e sem perspectivas. Se os porres, as baladas, as solidões e os bicos frustrantes pelos quais Ciro passa são desestimulantes, é por causa da direção, que exagerou no tom realista e intimista.

Não que intimismo não seja bom. Infelizmente, porém, nesse filme tudo parece um documentário. Brant não percebeu que, com uma história tão realista e crível (e ocasionalmente chata, como a vida), o estilo câmera-na-mão fica exagerado. Fazer com que a câmera seja um personagem, que assiste tudo com uma proximidade desconcertante, é como mostrar legendas em um filme nacional: redundância desnecessária. Tome, por exemplo, a cena do café da manhã. Ela poderia ter cortes, para dar uma certa ondulação dramática, mas Brant quis dar um tom “Dogma” à cena, tornando-a morna e aborrecida.

O único show do filme é cortesia de Tainá Müller e Júlio Andrade, espetaculares em seus papéis. Embora a proposta documental seja mal utilizada, ambos demonstram uma sensibilidade enorme para desenvolver seus personagens, tornando as poucas cenas boas memoráveis. Destaque para a conversa sobre poemas e para a interpretação musical de Ana.

E não tem como se esquecer do cachorro. Na verdade, tem sim. Ele é só uma metáfora da vida desgarrada de Ciro, e aparece tão pouco que sua função estilística se torna constrangedoramente óbvia. “Cão sem Dono” exagera na metonímia e acaba se tornando aborrecido e perdido, quando apenas a vida de seu protagonista o deveria ser.

Nota: 5,5

sábado, 14 de julho de 2007

Ratatouille

A nova animação da Pixar, “Ratatouille”, não é nada menos que deliciosa. É claro que os pratos refinados e realistas que foram reproduzidos no longa ajudam – dá quase para sentir o aroma das refeições. Mas o que há de mais saboroso é a qualidade indiscutível e os valores impecáveis deste que é um dos melhores filmes de 2007. Não por acaso, Brad Bird é quem comanda essa diversão toda, demonstrando que seu talento continua a aumentar a cada trabalho, já que o Oscarizado “Os Incríveis” também é espetacular.

Remy começa contando a história quando ele ainda morava com seu pai numa colônia de ratos, alojada no teto da casa de uma velha senhora. O faro do jovem roedor é espetacular, mas seu pai apenas o vê como um bom detector de veneno, enquanto ele tem planos mais altos: se tornar um grande cozinheiro. Porém, graças a um acidente doméstico, Remy acaba se separando de seu grupo, e cai na iluminada Paris. Ele conhece Linguini, um jovem desastrado que acabara de arranjar um emprego no restaurante de Gusteau, um respeitado chef que acabara de morrer. No garoto, o rato vê a chance de realizar seu sonho, embora tenha de evitar o paranóico Skinner, lidar com o temperamento difícil de Collete e fazer bonito para o temido crítico Danton Ego.

Se tirada toda a roupagem temática, o roteiro se apresenta apenas como a fórmula das animações atuais, mas ele é tão cuidadoso que ele dá um ar novo e estranhamente crível. Na verdade, até alguns clichês são evitados, e os outros são elegantemente disfarçados e não comprometem a história, fazendo de “Ratatouille” uma animação fofa, mas não boba. Os personagens principais são naturais e adequadamente humanos (incluindo os ratos), e suas personalidades guiam a narrativa, em vez de serem guiados por ela. Remy, Linguine e até alguns personagens principais são analisados e desenvolvidos com cuidado, focando em suas mentes e relações. O diretor Bird conseguiu dar até ao mais terrível vilão um momento de ternura, e foi feliz em despertar emoções baseadas em sentimentos individuais.

Para representar expressões faciais, o time de animação descartou a técnica de captura de movimentos, usada em “Happy Feet”, aumentando o número de possibilidades visuais. Com essa escolha, várias cenas de humor (e que humor!) foram viáveis, graças à elasticidade dada aos corpos e faces caricaturais – principalmente no caso de Linguini e Skinner. Remy e seus companheiros ganharam características humanas e animais, perfeitamente equilibradas, e também alguns dos pêlos mais realistas já criados por computação. Objetos e ambientes são de um realismo assustador, com texturas magníficas, vide páginas de livros, roupas, pele e, especialmente, comida. Esta última recebeu atenção especial, sendo tão impecavelmente real que é difícil não salivar por cada prato que aparece na tela.

A detalhada produção foi conduzida por Brad Bird com habilidade e um senso de diversão invejável. O diretor entende a flexibilidade do mundo digital e o explora intensamente, correndo com a “câmera” em excitantes e impossíveis tomadas, seguindo Remy em corridas insanas e aumentando a sensação de estar num mundo de gigantes. Essa liberdade digital também foi usada para desenhar os personagens e dar a suas aparências aspectos da personalidade de cada um. Linguini é tão magro que só há espaço para botões em seu uniforme. O “chef” Skinner é tão pequeno que sua enorme cabeça rouba a cena. Finalmente, Ego é tão sinistro e esquelético que Tim Burton provavelmente se sentiu orgulhoso. A sábia visão de Bird perimtiu que as expressões fossem as mais naturais possíveis, e, no final, nem dá para notar que os “atores” são apenas pixels.

“Ratatouille” é um dos melhores filmes do ano, até agora, mostrando que tanto animações livres como essa e as que usam a técnica de motion-capture (como no excelente “Happy Feet”) têm chance de serem boas – no entanto, a dispensável alfinetada de Bird no fim dos créditos abre espaço para preconceitos. Ambos podem ser tecnicamente perfeitos, divertidos e bem roteirizados, o novo pupilo da Pixar é um desses casos. É só escolher um diretor talentoso, como George Miller ou Bird, e dar algo em que ele trabalhar. Ou algo com que brincar, o que, no final, é bastante recomendável.

P.S.: O curta “Quase Abduzidos”, mostrado antes do longa, é hilário, bem feito e original. Confira.

Nota: 9,0

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Treze Homens e Mais um Segredo

Treze Homens e Mais um Segredo é o que o título sugere: mais do mesmo. Não é necessariamente ruim, mas tem defeitos que os filmes anteriores evitaram.

Quando se ganha dinheiro, a coisa mais automática a se fazer é tentar ganhar mais. Essa idéia domina todos os ricos do mundo (os honestos e os pilantras), e Hollywood, obviamente, está cheia de pessoas ricas. Já que a refilmagem de “Ocean’s Eleven” fez sucesso, a seqüência era inevitável. “Doze Homens e Outro Segredo” também deu grana para os cofres da Warner Bros., portanto, lá veio “Treze Homens e Mais um Segredo”. Os resultados na bilheteria dizem que haverá um “Ocean’s Fourteen”, mas é recomendável que não aconteça, por um simples motivo: a série está ficando cansativa. Embora todos sejam divertidos, os roteiros decaíram vertiginosamente a cada filme.

Dessa vez, a gangue de Danny Ocean (George Clooney) está relaxada e segura, cada um cometendo seus próprios delitos e tocando suas vidas criminosas. No entanto, Reuben (Elliot Gould) perde tudo o que tem para o empresário Willie Bank (Al Pacino), que o passou para trás no negócio de um cassino. Depois de sofrer um ataque cardíaco e ficar de cama, os antigos comparsas resolvem vinga-lo, atacando Bank do jeito que sabem: tentando roubar mais de 500 milhões na noite de estréia da luxuosa casa de jogos. No entanto, o intrincado plano sofre muitos percalços, e o pior deles é a necessidade de Terry Benedict (Andy Garcia) para financiá-los.

Entre a constelação do elenco ainda estão Brad Pitt, Don Cheadle, Matt Damon, Bernie Mac e Vincent Kassel, e o grupo de ladrões ainda nem está completo - a título de curiosidade, ainda há Scott Caan, Casey Affleck, Eddie Jemison, Shaobo Qin e Carl Reiner. A inclusão de Terry como o décimo terceiro homem de Ocean serviu apenas para facilitar o título da produção, pois ela é um tanto gratuita na história (ele não era o único homem rico de Las Vegas, com certeza). Entre tantos personagens, seu espaço na trama é bastante limitado, mas ele protagoniza algumas cenas engraçadas.

A maioria dos outros também tem pouco tempo em cena. Organizar treze personagens, em parte, principais, e dar oportunidade para que todos sejam desenvolvidos é uma utopia incabível. Portanto, alguns recebem atenção especial, até uma relativa profundidade, e outros apenas fazem sua parte no golpe. Não é difícil adivinhar os principais: Rusty (Pitt) e Ocean aparecem juntos várias vezes, conversando sobre a vida e, pasmem, sobre seus sentimentos. Seus respectivos atores acertaram em cheio, encarnando a aparência “cool” dos ladrões. Linus, o bom papel de Matt Damon, também ganhou um considerável tempo em cena, assim como o ótimo Gould, cujo personagem é a força motriz do roteiro.

Al Pacino é outro que se ressalta, mantendo seu típico histrionismo longe de Willie Bank, que é o tipo de empresário fechado, prepotente e arrogante. É uma pena que seu personagem seja tão previsível e imbecil. Muito do plano bolado por Ocean está calcado no ego enorme de Bank, e tudo depende de uma escolha totalmente infantil e idiota por parte do empresário – e ele age de acordo apenas para a história continuar fluindo. E, não só isso, boa parte do roteiro ignora quaisquer sinais de inteligência por parte do espectador, oferecendo explicações simplistas, planos esburacados e momentos tolamente improváveis. No entanto, a caótica subtrama no México vale por um inspirado Affleck e pela criativa insanidade.

Soderbergh carrega “Treze Homens e Mais um Segredo” em um estilo visual vazio, chupado dos outros dois filmes da série, e que não acrescenta nada ao filme. A única coisa que dá estilo é a trilha sonora baseada em jazz, animada e agradável, que se encaixou perfeitamente no ritmo da produção. O diretor também acerta a mão no humor, talvez compensando o roteiro absurdo, fazendo rir do começo ao fim, mesmo nas piadas mais óbvias. Ele também acerta ao acelerar o passo, espantando os críticos que diziam que “Doze Homens...” era muito lento: agora, os planos se desenrolam por dias a fio, mas apenas as frases mais essenciais aparecem na projeção, e tudo acontece muito rápido.

A elegante e estupenda edição foi essencial para manter o ritmo empolgante. A direção de arte também cumpre seu papel, mostrando o luxuosíssimo e moderno cassino com impressionante riqueza de detalhes, e as visões panorâmicas do prédio são fruto de bem realizados efeitos digitais.

Embora contenha incontáveis falhas técnicas, “Treze Homens e Mais um Segredo” se prova um filme de verão tão eficiente quanto o último “Piratas do Caribe”, embora deixe de lado os efeitos e a barulheira para se focar no elenco afiado e na comédia rasgada. Funciona bem, mas exagera por ultrapassar a barreira do descompromissado e se tornar desleixado.

Nota: 6,0

sábado, 30 de junho de 2007

The Brave One & Piratas do Caribe: No Fim do Mundo

É, com um cartaz e um trailer disponíveis, The Brave One já promete ser um dos melhores filmes a ser lançado esse ano! Aposto nesse filme no Oscar, embora alguns me critiquem, pois Neil Jordan já é bastante celebrado. Minha palavra final é que gênios merecem ser celebrados sempre, e Hitchcock pode não ter ganho Oscars, mas ao menos é um mestre até hoje. Um Oscar a mais ajudaria Jordan a ser lembrado como o gênio que é!
E aqui vai Piratas:

No último capítulo... Digo, no último filme dos Piratas do Caribe, Cuttler Beckett (Tom Hollander) pegou o coração de Davy Jones (Bill Nighy), podendo assim controlar o capitão do Holandês Voador. Jack Sparrow (Johnny Depp), por sua vez, foi morto pelo monstro Kraken, e Tia Dalma (Naomie Harris), Barbossa (Geoffrey Rush), Will Turner (Orlando Bloom) e Elizabeth Swann (Keira Knightley) devem ir até o Fim do Mundo para resgatá-lo do limbo. Para isso, eles buscam a ajuda do perigoso Capitão Sao Feng (Chow Yun Fat), e no encontro, Barbossa o avisa sobre a caça às bruxas que o governo inglês está promovendo contra a pirataria. O único meio de se proteger da invencível Armada inglesa seria reunindo os nove Senhores Piratas na Corte da Irmandade e libertando a deusa Calypso, que uma Corte antiga havia aprisionado em forma humana.

Embora o filme tenha quase três horas de duração, a sinopse acima o resume em sua totalidade. A única coisa que não pode ser dita é em relação às traições, que acontecem exaustivamente desde os primeiros 15 minutos até o final da projeção. Entre os vira-casacas, estão Jack Sparrow, Davy Jones, Cuttler Beckett, Sao Feng, William Turner, Tia Dalma... Bem, até o final do filme, todos os personagens trocam de lado ao menos uma vez cada. Por isso, falar sobre as surpresas o roteiro não só respeitam quem ainda não assistiu ao filme, mas também poupam dezenas de linhas no texto. A pergunta óbvia é: essas inúmeras inversões de papéis complicam o filme? Sim e não.

Os diálogos são rápidos e afiados (e nem sempre bons), e a maioria das informações está inserida nessas frases passageiras, do tipo “piscou, perdeu”. Ou seja, a chance de o espectador perder uma fala importante é enorme (ir ao banheiro, nem pensar). Em vários momentos, o roteiro perde o controle e se torna altamente confuso, em meio às traições, revelações e os incontáveis novos rostos. Por outro lado, a simplicidade reina no quesito desenvolvimento de personagens, portanto, toda a complicação, todo o calculado caos é simplesmente oco e sem propósito, já que as motivações de Will, Jack, Davy e outros não mudam, mesmo quando eles traem seus antigos aliados. Entre tantas “surpresas” no roteiro, nenhuma faz jus para realmente mudar a história, portanto, servem apenas para alongar o filme e permitir a inserção de mais cenas de ação.

Em compensação, as cenas de ação podem surpreender até quem tinha grandes expectativas. Embora as lutas à base de espada e pólvora sejam bastante divertidas, é no mar que “No Fim do Mundo” diz ao que veio. Há duas cenas em navios que se encontram dentre as mais detalhadas, bem boladas e emocionantes batalhas marítimas já filmadas, graças à belíssima direção de arte e aos efeitos visuais espetaculares. A computação gráfica foi utilizada exaustivamente, e, embora ela se torne a atração principal às vezes, sua excelência técnica é tamanha que é difícil destacar as cenas em que ela é usada. Prova disso é o visual impecável de Davy Jones, uma criatura totalmente digital que se insere entre os atores de carne e osso com naturalidade.

Davy, por sinal, é o personagem mais desenvolvido pelo roteiro. Interpretado por Bill Nighy, tão perfeito quanto em “O Baú da Morte”, o homem-polvo ganha algumas facetas a mais na última parte da trilogia. Além de ser mostrado seu lado sentimental (referente ao coração que ele trancou no baú), ele aparece em situações de dominação e até de humilhação, mas sempre com uma postura imponente e uma personalidade forte. Davy Jones demonstrou um ótimo equilíbrio entre um vilão que mete medo e que, ao mesmo tempo, não é unidimensional. Bill Nighy tem o melhor personagem, e sua atuação é certamente a melhor do longa. Infelizmente, ele é o único que se salva.

Embora o Capitão Sparrow não seja mais tão surpreendente quanto no primeiro filme, o grande talento de Depp faz o trôpego pirata roubar a cena cada vez que aparece, sempre para quebrar o gelo com sua interpretação, no mínimo, cômica. Naomie está ótima no papel de Tia Dalma, mas infelizmente ela apenas diz frases proféticas e artificiais, e mais nada. Hollander também é prejudicado pelo roteiro, já que Beckett deve mostrar apenas sua frieza britânica (mas uma intensa cena de ação o põe numa situação interessante). Geoffrey Rush reprisa o papel do primeiro filme, não adiciona nada, mas oferece mais do que já era bom. Chow, Stellan Skarsgaard e, especialmente, Keith Richards devem ser mencionados por suas divertidíssimas participações, e Bloom e Knightley, apenas citados como fracos.

O diretor Gore Verbinski foi importante para escolher e comandar o elenco, e suas qualidades profissionais não acabam aí. Ele demonstrou domínio total sobre seqüências de ação, evitando a edição rápida demais e vícios de filmagem (ele utilizou câmera lenta numa cena que ficou espetacular com tal recurso), em uma elegante homenagem aos Westerns "spaghetti", e até nas cenas de total surrealismo ele mostra seu eclético talento – errando a mão apenas no bobo aparecimento de Calypso. Todo o horror que era presente em O Baú da Morte está mais brando aqui, com uma violência elegantemente disfarçada e, muitas vezes, provinda do humor negro. No entanto, Verbinski deixa a comédia invadir muitas cenas que poderiam ser mais tensas e emocionantes. Isso chega ao cúmulo na péssima cena do casamento, certamente a pior de toda a trilogia.

“No Fim do Mundo” encerra a saga de modo satisfatório: como um filme de verão exige, tem muitas piadinhas, muita ação e um roteiro sem pé nem cabeça - particularmente sem cabeça. Embora tenha complicado tudo que podia, e mais um pouco, esse filme nos convida a simplesmente jogar a narrativa pela janela, acomodar-se na poltrona e aproveitar 3 horas (uma duração excessiva, diga-se de passagem) de ação surreal e fantasia. Embora seja levemente melhor que O Baú da Morte, a terceira parte ainda perde para o estiloso A Maldição do Pérola Negra, mas conclui a trilogia de forma divertida e barulhenta.

Nota: 6,5

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Zodíaco

Há inúmeros meios de se fazer um filme de serial killer. Alguns cineastas desconhecidos, que, aparentemente, não querem sair do anonimato, dirigem filmes sangrentos focados nos assassinatos brutais, como o “Zodíaco” picareta comandado por Uli Lommel. Outros gostam de surpreender com roteiros intrigantes e finais bem pensados, como David Fincher no excepcional “Seven”. Alguns até se aventuram em idéias mais originais, como o curioso “Dahmer”, que coloca Jeffrey Dahmer na posição de personagem dramático. Por sorte, Fincher e a história do Zodíaco se juntaram para criar um dos melhores filmes de assassino em série desde... bem, você sabe.

A ousada narrativa tem início em 1968, ano em que o Zodíaco primeiramente foi notado, por matar um casal de jovens em seu carro. Logo depois, ele mandou uma carta para o jornal San Francisco Chronicle, informando seu codinome e confirmando a autoria do homicídio duplo. Mais dois casais foram assassinados em diferentes locais – curiosamente, apenas as mulheres acabaram mortas, os parceiros sobreviveram. Porém, o serial killer quebrou o padrão ao atirar em um taxista no meio da área suburbana de São Francisco. O colunista Paul Avery (Robert Downey Jr.) escrevia sobre o assassino, enquanto o inspetor David Toschi (Mark Ruffalo) cuidava do caso, e o cartunista do Chronicle, Robert Graysmith, (Jake Gyllenhaal) apenas observava, pois o mistério o incitou desde o começo.

O filme acompanha mais de 20 anos de investigação sobre o assassino do Zodíaco, mudando o foco de Toschi para Graysmith, que mais tarde publicaria dois livros sobre o assunto que tanto o fascinou. Embora o tempo de projeção seja longo (158 minutos), a quantidade de informação é enorme, portanto um diálogo perdido significa um dado importante perdido. Desse modo, é interessante que um filme tão longo e tão fundamentado no roteiro consiga manter a atenção até o fim. E nas cenas de suspense, David Fincher continua excelente, criando um desconforto incrível, especialmente numa cena protagonizada por Jake no fim do terceiro ato.

Falando em Jake, ele está ótimo. Desde a pálida presença de Graysmith no Chronicle até a obcecada figura que aborda inspetores que foram ligados ao caso, Gyllenhaal consegue criar essa transição de forma a acompanhar o ritmo do filme, e embora sua motivação seja um tanto obscura, o empenho que ele bota na investigação é estimulante para quem assiste. Ruffalo também rouba a cena, revelando Toschi como um investigador sempre sensato, mas que esconde um fascínio similar ao de Robert pelo caso. Já Downey Jr. é o grande destaque do filme, criando momentos cômicos seja com os trejeitos bêbados (Jack Sparrow fez escola), seja com os olhares vagos ou com as frases hilárias.

James Vanderbilt investiu no humor para manter a densa narrativa mais acessível, e consegue fazer rir de maneira eficiente – especialmente quando Paul Avery está em cena -, criando uma dicotomia interessante entre o suspense e a comédia. E o que mais impressiona é o modo em que o longa foi idealizado: a longa linha do tempo evita resumos grosseiros e explicações apressadas, e o melhor, causa interesse. O diretor merece aplausos por ter sido original em sua abordagem e não se perder na complexa estrutura adotada. O filme ainda incita discussões sobre a real natureza do Zodíaco, que tem semelhanças e diferenças com a do John Doe de “Seven”: embora o primeiro seja pouco metódico e quase simplista, a idéia dos “seguidores” do segundo é reciclada de forma sutil.

Se há ressalvas a serem feitas para “Zodíaco”, elas têm a ver com a segunda parte da narrativa. Quando o foco recai em Robert Graysmith, parte da urgência presente no começo se esvai, já que o caso do Zodíaco está praticamente fechado. Isso sem contar que a motivação do ex-cartunista é pouco crível, como se escrever o livro fosse um mero detalhe. Por outro lado, foi uma decisão acertada mostrar o quão preocupada ficou sua esposa, Melanie (Chlöe Sevigny, ótima), assim como colocar a melhor cena de suspense nessa parte da história.

Além de tudo, “Zodíaco” ainda é visualmente interessante, contando com eficientes efeitos visuais e uma câmera inspirada. David Fincher é um dos cineastas mais brilhantes dessa geração: em 15 anos de carreira e com apenas seis longas no currículo, ele é um dos diretores que mais reavivou o cinema atual, criando obras de ótima qualidade com freqüência. Espero que o inexplicável mau desempenho desse último filme na bilheteria não atrapalhe sua promissora carreira.


Nota: 9

quinta-feira, 14 de junho de 2007

O Cheiro do Ralo

Se “Nina” já saía bastante da rotina do cinema mainstream brazuca, o novo trabalho de Heitor Dahlia, “O Cheiro do Ralo”, é ainda mais separatista e distinto. Continuam os transeuntes bizarros, as ambientações peculiares e os protagonistas complexos e um tanto psicóticos da estréia do diretor, porém, em seu segundo longa, ele carimba com mais força ainda o selo “Alternativo”. Esse filme não é para todos os gostos, e, enquanto “Nina” ainda é atraente pelo forte e belo surrealismo, aqui o mau gosto predomina: os diálogos são repreensíveis, as situações são indigestas e o humor negro é o único “alívio”.

A história é baseada no livro homônimo de Lourenço Mutarelli, contando a vida de Lourenço (Selton Mello), um homem solitário que trabalha comprando artefatos antigos. Suas únicas companhias constantes são o segurança de sua loja (papel do autor Mutarelli) e sua secretária, já que ele desistiu de casar com sua noiva e ela saiu do apartamento onde moravam juntos. Um dia, num boteco, ele dá de cara com uma garçonete (a promissora Paula Braun) de nome impronunciável, cuja primeira qualidade que ele nota é a bunda. Daí nasce uma obsessão pelos glúteos da garota, similar à obsessão que ele tem pelo fétido ralo do banheiro de sua loja. Tudo o que ele quer na vida é a bunda, e enquanto isso, le esbarra em personagens cada vez mais bizarros que aparecem para vender seus pertences.

Em “O Cheiro do Ralo”, é interessante notar que as comparações poéticas e/ou metafóricas estão totalmente destacadas da narrativa. O ralo é citado como fonte de energia e como um portal para o inferno, assim como o olho de vidro, objeto que fascina Lourenço a ponto de fazê-lo pagar alta quantia para possui-lo, é tanto visto como um objeto místico, uma maldição e uma parte do “pai Frankenstein”. No entanto, o ralo nada mais é que um sistema de tubos entalado com dejetos humanos, e o olho nada mais é que uma coisa, e o filme deixa isso claro em diversos momentos. Os devaneios do protagonista são só dele, e tais artefatos apenas servem para expandir sua personalidade para além de sua própria existência.

Essa forte personalidade de Lourenço é o que há de mais interessante na história. A frieza crua com que ele trata os desesperados que lhe aparecem para vender traquitanas é essencial, visto que várias daquelas pessoas estão em situações precárias e dão ênfase à necessidade que estão passando. Por outro lado, ele não fica contente usando apenas de desdém: suas tiradas ainda estão impregnadas de sarcasmo, e ele dispara tais farpas como que para realmente ofender os clientes.

A razão para tal hostilidade é dupla: por um lado, ele realmente percebe a inferioridade daquelas pessoas, a maioria com visível aparência passiva e encolhida. E assim ele faz, diminuindo a pessoa em frases curtas e ríspidas. Talvez sinta ódio de todos os que resolvem se desfazer de artefatos valiosos, já que objetos são para ele mais importantes que seres humanos – excetuando-se a bunda da garçonete. Portanto, quando oferecem algo que o cativa, caso do olho e da perna mecânica, ele até abre sua calculada mão-de-vaca, por acreditar na importância que o objeto terá para ele.

Por outro lado, o comportamento agressivo de Lourenço também pode ser interpretado como um endurecimento, uma transição de pessoa solidária para um ser atipicamente frio devido às circunstâncias da vida. Tendo de se acostumar com o destrato de dezenas de pessoas, ele acabou se privando do contato humano, tornando-se desajeitado quando precisa ser sociável. E no único momento em que ele desabafa sobre seus sentimentos, ele também revela o quão desastrado é nas relações interpessoais – uma cena, no mínimo, hilária.

Obviamente, aqui não há o tipo de piada que se vê em comédias adolescentes de Hollywood, nem em episódios de A Grande Família. Aqui o humor negro conduz a narrativa, não deixando espaço para tiradas leves ou engraçadinhas. Embora honesta em sua exclusividade, a escolha de não provocar o riso fácil é difícil de assimilar: para quem não está familiarizado com esse tipo de piada, o filme não terá graça, e pode passar como uma produção dramática. A fita acaba não saindo desse limiar, portanto, tanto o humor quanto o drama são prejudicados em certos momentos.

Mas isso não compromete o filme totalmente, já que vários momentos engraçados se salvam, e as qualidades estão presentes em todos as cenas. A direção de arte é magnífica, verossímil ao tratar a realidade dos personagens, e a fotografia peculiar aumenta a sensação de estar assistindo a uma produção distinta. Já Selton Mello apresenta seu melhor papel cinematográfico até hoje, encarnando Lourenço sem meios-tons, abusando das manias bizarras e criando um ar de indiferença constante para o frio protagonista. A cena em que ele encontra um encanador igualmente desbocado é uma aula de timing cômico.

A atuação inconstante de Mello, combinada com a ousadia que inunda cada cena, fazem de “O Cheiro do Ralo” uma peça obrigatória do recente cinema nacional. Pode ser difícil de assistir e de assimilar, mas uma segunda olhada talvez seja ainda mais gratificante que a primeira.

Nota: 8,0