quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

7

Em O Lutador, Aronofsky trabalha primorosamente idéias abstratas por um viés fortemente concreto. Sua câmera, uma presença física, quase nunca distante de seu objeto de estudo é o meio que ele usa para impor o físico ao abstrato, usando planos belíssimos (e simples) para termos uma visão nostálgica, numa posição de quase veneração. Alguns graus para o lado, e o rosto surge, surge como está, empapado em lágrimas, em sangue, inchado, envelhecido, estilhaçado. Enquanto há uma sensação de tímida adoração, ao mesmo tempo há a desnudação total, o vislumbre das intimidades mais variadas de um homem que odeia seu nome, por um motivo que não carece de menção.

Levando-se em conta o roteiro, fica claro como Aronofsky não se bastou no ótimo texto e, de maneira simples mas eficientíssima, imprimiu ainda mais personalidade à vida do protagonista. Afinal, Siegel passa longe do maniqueísmo, não desnuda Randy logo de cara, preferindo fazê-lo aos poucos até o momento certo (quando vemos seu trailer por dentro), trabalha temas como redenção e nostalgia de forma sutilíssima e tocante, e consegue focar a atenção naqueles momentos de transição, aquelas cenas que todo ser humano vive, mas que poucas telas de cinema têm o prazer de mostrar. É nisso que se baseia Rourke, calcando todos os seus momentos, seja a humaníssima cena dos frios, a estilhaçante briga com a filha, ou as violentas lutas, no mais puro naturalismo, numa interpretação assustadoramente sóbria.

Também é de cair o queixo a atuação de Tomei, com aqueles sorrisos que parecem surgir do hábito profissional, mas sobressaem-se duas cenas em que ela mais mostra seu interior - e se despir em cena diversas vezes só dificulta o trabalho de se despir emocionalmente. Ela é tratada por um dos grandes roteiros do ano com austeridade, ela é o mundo real, o mundo "de fora", e Randy faz sua escolha, melancólica, talvez desesperada, mas chora de alegria por ainda ter pessoas que o amam. E o salto é, debaixo da incerteza, a garantia de que Randy está vivo.
10,0

Revi O Curioso Caso de Benjamin Button e continuo achando um filmaço. Além da parte técnica que é de um primor absolutamente constante, temos uma direção que cria um universo que anda em corda bamba por 170 minutos, e nunca erra um passo sequer, andando bem na linha entre um acontecimento fantástico e o mundo real. Ótima escolha, esse equilíbrio ressalta a melhor perspectiva oferecia pelo roteiro, que aposta em pequenos acontecimentos, atos e falas para se sobreporem à eloqüência das frases mais explícitas de "ensinamento" numa bela metonímia, eco da espinha dorsal do texto. O jogo constante entre o extraordinário e o ordinário é um primor exatamente por acontecer dentro de um mundo estabelecido como real, sem a necessidade de resvalar entre dois universos diferentes, tirando disso sua força e sua razão de ser.

Desplat é particularmente feliz por, já em poucas notas, fazer o espectador mergulhar totalmente naquela existência ilógica, fantasiosa, e seu uso constante só faz o filme ganhar. O ganho também vem na forma do elenco, liderado por um Pitt hipnotizante, mais sutil e cheio de nuances que nunca, aceitando e cumprindo o desafio de interpretar o observador protagonista. Embora Blanchett me pareça um tanto exagerada como anciã doente, ela vive Daisy com intensidade. P. Henson acerta em uma caracterização parca em sutilezas mas cheia de um explosivo amor materno, nunca "ownnn" demais, e Swinton brilha em suas cenas graças a uma alternância belíssima entre charme altivo e acessibilidade tímida. Ormond cresce sutilmente na leitura da história, chegando ao final assim como Button chega aos 50 anos: ele, cheio de sabedoria que não aparenta, e ela, mais sisuda quanto a tudo que aprendeu naquele dia.

9,5

Tendo como título o grande vilão do filme, Dúvida arrebata através de um roteiro excelente que consegue desenvolver o tema em uma porção de cenas e personagens exemplares, dando completude ao todo. Somos apresentados à dúvida como uma presença malévola, uma perturbação incômoda de início, mas desastrosa a longo prazo, invadindo a vida de todos com violência. Padre Flynn faz as coisas de acordo com sua certeza, mas a intromissão da Irmã Aloysius o estilhaça e transforma sua bondade num desafio gigantesco. Sra. Miller também tem na freira a deturpação da tão sofrida paz sua e de seu filho. Irmã James é constantemente tirada de seu equilíbrio através da língua viscosa de Aloysius, e só encontra alento quando se sente certa de algo. E o filme só cresce ao mostrar uma personagem que poderia ser uma vilã como uma pessoa não muito diferente de James, por exemplo, por ter, na certeza inabalável, um meio de se enrijecer perante o que acontece a seu redor - o final é acachapante por esse motivo.

Já que estou na cena final, vale dizer: a câmera se afastando foi uma das piores idéias de um filme cujo diretor faz inúmeras más escolhas - nesse caso, dando uma cara de dramalhão de quinta a um brilhante roteiro. A idéia de "entortar" o enquadramento (recurso que Shanley deve ter ter achado genial, sabe-se lá por que), as câmeras petrificadas, a total falta de dinamismo no set, tudo isso marca um regente que não tem idéia do que fazer com o que tem, e isso não é pouco.

Além do texto exepcional, o elenco fulgura, terminando por liderar, por nuances lindas, um filme de formato quase insípido. E muitas vezes funciona: a discussão de Aloysius e Miller, todas as cenas da sala de Flynn, o sermão da intolerância, as conversas no banco da paróquia... todas são cenas absolutamente regidas por um roteiro e um elenco de primeiríssima categoria, e é só a eles que a alta voltagem dos momentos se deve. Os personagens grandiosos, o roteiro fino, e as atuações dignas de Oscar saem intactos. O filme não.

7,0

É um tanto precipitado e romântico dizer que Milk é um filme direto-ao-ponto. Sem dúvida poderia ter sido, e sem dúvida os realizadores decidiram por um caminho mais equilibrado. O retrato da época (brilhantemente ressaltado pelo irretocável trabalho de figurino) e dos personagens é prático, sem delongas ou grandes digressões focadas em causar emoções no espectador. Os eventos do filme são, sim, objetivos; independente da fidelidade dos acontecimentos, o que se passa no roteiro torna a história mais complexa, ajudando a investir nas dimensões do movimento gay, no aprofundamento dos trâmites políticos e no desenvolvimento dos personagens. O que salta aos olhos é como van Sant e Lance Black não se perdem em tentativas de emocionar e focando numa sobriedade dramática que concomitantemente evita a manipulação emocional e freia uma secura extrema.

São raras as vezes em que diretor e roteirista tentam manipular o espectador, e o elenco encara corajosamente o desafio de retratar personagens complexos. Pegue Brolin, por exemplo, que é tratado com uma humanidade inesperada e, nem por isso, investe numa figura demasiado romântica e trágica - está tudo em proporções magnificamente bem dosadas, o crescendo de discordância perante Milk, a tensão política de sua carreira, a inegável tristeza que habita seu interior. Hirsch, por outro lado, aparece como uma figura antipática, e, ao mesmo tempo, cativante, de algum irritante modo. Todas as cenas em que ele faz transições com seu personagem, indo, por exemplo, da futilidade revoltada para um engajamento sinceríssimo, são o que tornam sua atuação outro dos grandes trunfos do filme. Luna é suportado pelo roteiro, que o permite ser depreciável, e pela direção, que diminui sua presença a ponto de mediana perturbação, fazendo-o ressoar com intensidade apenas no personagem de Harvey. E Franco, impressionante em seus padrões, passa a sensação perfeita que causa no personagem-título, ajudado por diálogos ternos, mas amargos, que ele adequa com habilidade a sua performance.

Só pela qualidade de um elenco que mesmo em menores participações (Grabeel, Pills, Cross, Garber, O’Hare, Rosenman) eleva o nível à estratosfera, Penn já tinha um desafio incomum. Como se fosse sua própria natureza, o ator encarna o espírito resolvido e determinado, mas altamente bem-humorado de Milk, alternando brincadeiras espontâneas com discursos que parecem surgir no calor do momento, usando de trejeitos quase desmedidos (medi-los em demasia seria enfraquecer a caracterização), reconhecendo a seriedade de certos momentos mesmo quando tenta mascará-la, potencializando emoções que explodem de dentro para fora em palavras gaguejadas e gritos, externalizando constantemente o que existe dentro de seu personagem, chegando ao ponto de soar naturalista em sua grandiosa entrega.

Com idêntico fervor, mas dessa vez à causa gay, Dustin e Gus desenvolvem a história como um libelo em favor da liberdade, sem nunca perder de vista que, como Milk acreditava, a liberdade era uma conseqüência, pois a devoção é principalmente aos direitos dos homossexuais. A escalada de conquistas, a explosão do tema por todo o país, e talvez o mundo todo, a fatídica necessidade de todos ficarem frente a frente com os gays e finalmente reparar neles, sem desdém ou ilusões de invisibilidade, é outro aspecto em que o filme de van Sant se torna grandioso. E embora o diretor aposte numa manipulação largamente incoerente bem no final da projeção (ao que isso não é feito em outro momento-chave) e, às vezes, use a bela trilha de Elfman de formas menos proveitosas, sua direção é firme, fresca, e o uso de imagens de arquivo é feito com pungência. Aquilo aconteceu, de verdade, e isso não se pode negar nem na ficção nem na realidade.

9,0

Todo diretor sabe sobre o que é seu filme, e sabe em que focar. Como resolver isso, então, quando o foco está em mais de uma coisa, e uma dessas coisas é igualmente importante e periférica? É o que Ingmar Bergman tem de resolver em Gritos e Sussurros. Se por um lado, temos três irmãs no centro inegável da trama, temos Anna, a criada, cujo papel é tão essencial ao tema quanto é secundario na vida das mulheres, por motivos obvios. O gênio sueco resolve isso nao atraves da direção, ou de um elemento especifico da narrativa, mas com todo o seu poder de regente, revelando (mais uma vez) que é intelectual e artisticamente soberano ao fazer um filme.

Temos o trabalho de som, que usa relógios constantes para ditar a vida trôpega de Agnes, sinos para evocar lembranças que aparecem fielmente, sons corriqueiros arranjados como insuportáveis quebras no silêncio, sendo ja este incômodo por si só. Sem falar na trilha sonora, que surge em certa cena dissonante, sem fazer sentido com a assinatura sonora do filme (e de boa parte da filmografia de Bergman), de acordo com o que o momento representa. A fotografia e a direção de arte, nada sutis, têm como intenção principal impor o vermelho com força nas vidas das personagens, sendo trocado pelos sentimentos de cada uma das mulheres e projetando-se no presente. Veja como as composições fortissimas solidificam, emolduram, como numa pintura, a distância entre Maria e Karin, e como, na cena do perdão, serve como superfície para novas emoções, adquirindo uma maleabilidade nova. Ele parece estar lá como ressalva, um `apesar de todo esse vermelho, elas se aproximaram`, mas nunca, em momento algum, se ausentando.

Karin, em uma única cena repleta de significado, demonstra a imposição da cor, ao se despir na frente de Anna. A primeira vê isso de forma profissional, pois a criada tem de cuidar das roupas da ama, mas a segunda parece ver naquilo um elo emocional, como fica claro nas varias cenas em que se despe para dar mais conforto. Mas Karin se despe, e depois se veste.

E é quase trágico que a mulher seja tratada de tal maneira, quando estava claro que tinha amor e afeição quase maternos a dar. Ela é tratada como peça chave da narrativa, mas a direção se encarrega de apagá-la , dando a aparêcia de personagem pouco relevante. E se não bastasse o rigor formal (que é metade da indiferença de Karin e Maria perante a Anna, sendo a outra metade o fardo das emoções vermelhas), ainda há uma brutal diminuição da personagem; enquanto as lembranças das mulheres são esmiuçadas com uma narração em off, as da criada são meramente mostradas, e mais, são apenas um sonho.

O sonho, profundo e essencial para a trama (como o de Morangos Silvestres não foi), ressalta os vários tipos de ignorância de Anna, indo desde a mera impossibilidade de entender o que se passa na mente das frias amas, até uma sensacão de melancólica importância provinda não de carinho sincero de Agnes, mas sim de sua situação extrema, e do conforto único que a criada ofereceu. Isso fica claro na cena final, em que Agnes, confrontada com a deprimente fugacidade da felicidade, com a arrebatadora maré de sentimentos, traz a apoteose do senão das irmãs todas, ao que Anna e deixada para trás, sem nem uma conclusão narrativa. Ela deu de cara com a verdade, mas a reação não e mostrada, pois `não importa`.

A claustrofobia, o terror constante do império interior de cada uma das irmãs, a perturbadora (mas passageira, mesmo que demorada) presença da morte e a ainda mais aterradora companhia das memórias (que nunca se vao) e refletida desde o começo, em planos estáticos, mas abertos, do exterior que so e visto como promessa, seguidos de planos fechados em relogios, numa abordagem brutal da vida das pessoas que residem aquela casa. E comentar Ullman, Andersson, Sylwan e Thulin é no minimo ofensivo, por dar a entender que suas atuações brilhantes podem ser postas em palavras. Mas como essa obra de arte também merece ser intocada, e cá está um comentário sobre ela, essas mulheres merecem ao menos um texto a parte.

10,0

Mesmo que o roteiro de Coraline se valha de ferramentas previsibilíssimas e lugares-comuns abundantes, o trabalho de Selick na direção é um daqueles casos de grande redenção, em que uma estupenta obra nasce mesmo com uma base aquém. O clima é irretocável, sinistro na medida certa e regado a uma trilha sonora excepcional. A diferença de sensação de um mundo para o outro, e as mudanças que vão sucedendo em ambos, são manejados com maestria e sensibilidade, nunca entregando momentos muito macabros logo de cara. Vem muito mais da direção do que do roteiro o tédio inicial da vida de Coraline, assim como o deslumbramento perante o mundo "perfeito", e a harmonia que vai lentamente se instalando em ambos os mundos.

E isso é realmente interessante, a idéia de que o mundo real é bom, com um verniz de lados negativos, enquanto o mundo atrás da porta é mau, disfarçado por uma casca de lados positivos. E, mais uma vez, o roteiro é salvo (ou melhor, corrigido) por outro elemento, o visual. Veja o final, em que a sutileza belamente anunciada pela ambientação inexiste, ao passo que a cor é cinzenta, mesmo em meio ás cores do jardim, carregando a bem-vinda dicotomia. As escolhas visuais dão força ao filme constantemente, com cenários detalhados e uma fotografia apurada, e é lindo que nenhum desses elementos carregue nos vícios Burton-escos, encontrando seu eixo. Por sinal, ver em 3D só aumenta a graciosidade da experiência.

8,0

A cena-do-filme de Quem Quer Ser um Milionário? é o momento em que Jamal "tem" que pular num fosso de merda para ver seu ídolo. O personagem está todo escrito ali, enraizado como uma criança diferenciada dentre tantos favelados de Mumbai. Por mais arredios, selvagens e independentes que todos os seus companheiros sejam, essa atitude, essa ânsia por fazer o que parece certo a despeito de todos os contras, é o que o define, tornando, num raríssimo caso, o bom e velho Destino numa verdade crível dentro da história.

Encontrar o tom correto não parece fácil, já que é um filme otimista cujo protagonista sofreu horrores durante a infância, chegando á adolescência, sabe-se lá como, sem graves sequelas. O que o filme não deixa de mostrar é como aquela existência é penosa, porém corriqueira e abundante nas favelas de Mumbai, mostrando que as crianças que crescem ali podem acabar indo por caminhos variados, e, focando-se em personagens seletos, fica claro como a personalidade de cada interfere nessa estrada, e como o inverso igualmente ocorre.

Adotando uma estrutura realmente livre, cheia de alternâncias temporais, o roteiro dá conta de tudo isso sem alongar os lugares-comuns (o chefe de Salim e Latika, o envolvimento do delegado com a vida de Jamal) e fazendo escolhas sóbrias (a resposta da última pergunta, que podia dar liga para uma pieguice extrema, e não seria a primeira vez no filme) para evitar uma romantização exacerbada. Por sinal, é notável que o filme, mesmo em seu otimismo, não romantize a dura estrada dos garotos, deixando-a tão brutal e marcante quanto devia ser.

Ponto para Boyle, que encontra uma linha firme e não hesita em se aventurar fora dela para melhores resultados - graças a isso, há câmeras nervosas, mas controladas, uma fotografia belíssima que passa longe da repetitividade e climas variados, fervorosamente condizentes com seus momentos. Embora caia num didatismo irritante mais para o final, o diretor só deixa os acertos mais claros quando ajudado pela extraordinária montagem.

Outro senão é o personagem de Salim, que tem pelo menos dois momentos pouco inspirados no roteiro, embora os intérpretes sejam maravilhosos e cativem de forma completa. O mesmo se pode dizer dos jovens que interpretam Jamal, todos entregues de corpo e alma, os mais novos por motivos óbvios, e Patel, por talento, já que ele atua com um vigor e uma sensibilidade insanos. Kapoor também deve ser citado, por dar vida e cor a Prem com a máscara e a sinceridade sempre lutando em seu rosto.

Acompanhado da ótima trilha de Rahman, esse belo filme só torna Danny Boyle ainda mais interessante e prova com estilo e firmeza que ele é um diretor extremamente potente e competente, e as narrativas só tendem a usufruir dessa força.

8,5

domingo, 15 de fevereiro de 2009

17

Cães de Aluguel
Faltando "só" Jackie Brown e À Prova de Morte para eu fechar a filmografia oficial do Tarantino, já acho que é válido dizer: Cães é o meu preferido. O que são aqueles diálogos, dando uma vida extra-plot que 99% dos cineastas nem consegue arranhar? O que é aquele trabalho de câmera, que nunca tenta se disfarçar e investe em tomadas primorosas? O que é o elenco, encabeçado por Keitel e Roth em performances apaixonantes, quase tocantes, e coroado com Madsen tomado por um ar assustadoramente charmoso? Eu sei. É o Cinema e os anos 90 indo ao altar com promessas (e muitas provas) de tornar-se uma década genial para a Sétima Arte.
*****

A Encantadora de Baleias
Choque de gerações, conflitos iniciados pela tradição. Temas mais do que batidos, mas, quando usados com paixão pela proposta, podem resultar em pequenas jóias como o filme de Niki Caro. O que se sobressai aqui é a narrativa, que corrobora lendas tidas como só isso, fantasia ancestral. Mas, em vez de usar elementos fantásticos dentro de uma trama real, o filme faz questão de soar como um conto mitológico, sem tentar explicar a criação do mito, optando apenas por contá-lo da mesma forma poética e acachapante que fez milhares de outras fábulas e contos lendários sobreviverem ao tempo.

Sem facilitar, a roteirista não escancara esse ode tão cedo, deixando claros os danos que a tradição (especialmente uma tão antiga e machista) traz para a sociedade. Paikea, em sua relativa androginia, surge terna, feliz com sua relação com o avô, demonstrando uma atitude menos feminina - indicando uma criação diferenciada. No entanto, sua voz é totalmente diferente ao entoar os cânticos, demonstrando uma imposição não consciente, muito menos inocente, mas totalmente inescapável em relação às regras tradicionais. Encabeçando o ótimo elenco (salvo o mediano Curtis) com uma performance espetacular, Castle-Hughes mostra essa passividade, essa incapacidade de mudar, através de olhares distantes, como que sempre procurando algo no mar, quase perdidos em sua inevitável melancolia. Tudo que ela faz é tão culpa dela quanto a morte de seu irmão gêmeo ao nascer. O roteiro usa o destino sem pudores, como carro-chefe da história, e alcança excelentes resultados - e mesmo a didática trilha da incrível Lisa Gerrard traz pura luz a essa cativante história. Os conflitos dramáticos estão longe da perfeição, sim, mas é um dos poucos problemas sérios do filme.

A conciliação entre tradição e mudança é previsível, mas é o mote do filme, um anúncio feito, embora mais sutilmente que o normal (com conflitos que drenam a esperança de Pai, que só tem o destino a seu lado), bem cedo na narrativa. Logo, na cena de tirar o chão que é o discurso ao avô, os elementos mitológicos atacam com força, pegando a platéia (assim como a comunidade de Pai) de sopetão. A tradição é o respeito ao mito ancestral, e A Encantadora de Baleias mostra que tradição pode se aliar a mudanças, quando uma lenda sofre uma mutação a olhos vistos. E num filme tão ligado à tradição, a menção honrosa vai a Vicky Haughton, excelente no papel da avó da protagonista, que mostra um posicionamento não bom, nem ruim, mas humano perante tudo isso. E só ressalta, comparada à neta, como esta é algo além.
****

Harry Chegou Para Ajudar
Premissa interessante, ator promissor, e outras palavras que parecem muito com "omissão" são adequadas, pois é mais ou menos isso que os realizadores fazem com a trama. Bastante similar ao patético O Oculto, que vi na última Mostra de SP, esse thriller, no entanto, sabe explorar melhor um ótimo ator: Sergi López, de O Labirinto do Fauno. Conferindo ao (err... spoiler?) psicopata uma maneira de andar diferenciada (algo notável no filme de del Toro também), e injetando uma simpatia que poucas vezes soa caricata, López se sobressai mesmo quando o texto de onde seu personagem surge não colabora, dando credibilidade e intensidade a Harry e alimentando um clima bizarro (e às vezes intencionalmente hilário) em várias cenas.

Por outro lado, o roteiro tenta soar especial, revelando cedo a natureza do personagem-título, deixando solta sua motivação e usando de um desfecho anti-climático coerente com o protagonista Michel, e não consegue. É inegável que a previsibilidade reina, que o final, por mais ambígüo que tente ser, é na verdade uma variação em metalingüagem mas a mesma patacoada de sempre - dá para imaginar muitos outros caminhos mais interessantes para a trama, especialmente com um tema tão bem-explorado como a escrita e um personagem tão frágil (no bom sentido) como Michel. Infelizmente, se López é um bom ator em um personagem O.K., o oposto deve-se dizer de Michel. Em partes. Seu personagem é fraco, mas isso é seu diferencial, e consegue ecoar durante o filme todo, normalmente com resultados bons, mesmo que a trama não melhore. No entanto, Lucas e sua carranca raramente convencem, ao passo que sua inexpressividade obstrui outro caminho para uma boa atuação. Conseguindo ainda a façanha de não ter uma cena de tensão sequer (tá, eu dou a cena da perseguição), a direção de Dominik Moll ao menos acerta no tom de estranhamento constante que a família sente com a presença do intruso. Mas uma indicação em Cannes, uma no BAFTA, e 4 Césares não querem dizer muito nesse caso.
**¹/²

Sobre Meninos e Lobos é um luto. A escolha de iniciar o filme pela cena do carro não é apenas sóbria (descobri-la ao longo da narrativa seria uma chatice), é essencial para delimitar a área de atuação do roteiro, introduzindo a morte para se enveredar na lamentação subseqüente. Também providencialmente, o assassinato é revelado ao espectador, através da nervosa (e nunca exagerada) edição, antes mesmo que Jimmy suspeite, para fazer a metalingüagem com a morte não-percebida dos três garotos quando Dave foi levado. Foram necessárias décadas para que isso fosse notado. E enquanto Eastwood usa uma misè-en-scene vigorosíssima, uma verdadeira teia de olhares silenciosos, enquanto Robbins carrega toneladas de passado e luto em seu corpo e mente, enquanto Penn abraça o seu lamento como quem vê nele o último elo com a filha perdida, enquanto Bacon sofre suas perdas sem nenhum consolo externo, enquanto Gay Harden e Linney interferem nas feridas de formas totalmente opostas (com ambas vendo seus gestos acalentadores desabilitados), e enquanto a fotografia cria uma paleta assustadoramente melancólica, o filme se origina numa tragédia apenas para terminar com outra, culminando numa das cenas mais cheias de significado dos últimos anos.
*****

Em dado momento de Um Táxi para a Escuridão, é descrita a seguinte cena: um homem está sendo torturado por ser suspeito de ter ligações diretas com o terrorismo, e é pressionado a dar informações, dizer o que sabe. Ele diz que o governo iraquiano tem armas químicas e biológicas. Mais que depressa (e essa, e as seguintes frases são similares às usadas por quem conta o caso), os homens cessam a tortura completamente* e correm a transmitir a informação, sem se dar ao luxo de averiguar qual a veracidade e quais os detalhes do que foi dito. Mas não é apenas a ineficiência da tortura, que pode produzir confissões absolutamente falsas baseadas no que o torturador (não só o algoz físico, mas o que dá as ordens, o que pondera as ordens, o que aceita passar as ordens), pois esse é o mote do filme.

O que mais chama atenção é o tom em que isso é dito. É uma reprovação, mas não reprova só o resultado da informação errônea: em um ato falho sutil, há clara intenção de dizer que a informação deveria ter sido confirmada. Em outras palavras, a tortura deveria ter continuado. E essa culpa, indelével, presente em quase todos os entrevistados no documentário, é o que salta aos olhos, com uma coerentíssima análise da reação de várias camadas da sociedade quando confrontadas - ou manchadas - com a tortura. E o fato de o filme usar de ironias do modo que elas surgem, clara e cruelmente, só intensifica a experiência. É bem incerto o porquê de certas cenas didáticas (quando há tantas imagens realmente chocantes), e sobram os momentos finais de sentimentalismo, quando há tanta pungência e rigor moral na análise de Gibney.

Não que seja fácil, moralmente. É desafiador ver-se de frente com algo que é feito há milênios, e que é necessário no mundo de hoje. Mas mais difícil é olhar para os rostos vivos dos acusados, e ver imagens de arquivo dos intocáveis responsáveis por uma brutalidade (maior? equivalente? diferente?). Mais uma prova da inteligência monstruosa do Homem.
****

Talvez mais genial que as tramas que seus personagens tecem, Ligações Perigosas adota uma moral definida, especialmente cm comparação àquela que comandava a Paris retratada. Não há, noesse mundo, pessoas sem segundas intenções, sem malícia, sem envolvimento em sagazes tramas, e o melhor: não há ninguém que não saiba sobre elas. A vida social da burguesia parisiense é por definição crivada de intrigas e imoralidades que preferem não desafiar, mas desviar elegantemente (sempre elegantemente) dos códigos de ética em voga. Mesmo a casta Cecile pouco demora para aprender a utilizar a moeda de troca do submundo da alta sociedade.

Não há espaço para bondade pura, uma pessoa ou usa de meios ou quer chegar a objetivos reprováveis, e Madame de Tourvel é a única que escapa da regra - em partes, ou melhor, não, se considerarmos a brilhante analogia entre o Visconte e a dama, em que vemos ambos abrindo exceções em todo um modo de vida pessoal. O final é brilhante, mesmo com uma declaração um tanto longa do Visconde, por causa dessa brilhante comparação, e não raro, de maneira absolutamente orgânica e elegantemente sutil, vários outros subtextos podem ser encontrados no excepcional roteiro.

E é neles, e nos outros que só gente física pode encontrar, que o elenco se esbalda, cruzando olhares que significam mais que qualquer frase, usando de pequenas, sutis expressões para denotar toneladas de sentimentos, mudando quase que imperceptivelmente a entonação de voz (Malkovich, quando mente), personificando os sentimentos de orgulho de toda a população feminina (Close, que diz tão pouco, que em certaz cenas, como a da guerra, causa arrepios genuínos de intimidação), sofrendo como uma verdadeira mártir (Pfeiffer, que ainda consegue se conter), saboreando uma desavisada reificação pelo prazer que ela traz (Thurman, uma lolita perfeita), e isso é resumir brutalmente elementos grandiosíssimos. Como a habilidade de Frears em modelar de forma exímia um filme odiosamente delicioso como esse.
****¹/²

Ontem revi Terror em Silent Hill, e caiu um pouco mais (cada vez piora), mas ainda gosto imensamente da direção, dos temas abordados e do visual. E do elenco feminino, que salvo a aceitável Mitchell está consideravelmente bom. Mas também não dá pra negar os diálgos, todos abaixo do nível do aceitável e o roteiro pessimamente executado. Mas a trilha sonora, a coisa mais fiel à fonte num filme que mudou bastante a trama original, dá toda a alma que nem o serviço porco de Roger Avary consegue estragar. A mudança do objeto de culto dos fanáticos é no mínimo interessante.
***

Cabei de rever The Rocky Horror Picture Show. Filme cult que merece a alcunha. O Doutor Frank-n-Furter de Tim Curry é um dos personagens mais geniais do Cinema, os números musicais são um arraso e a esculhambação de gêneros, com direito a um roteiro que se perde a cada 5 minutos num samba do crioulo doido, me dá orgulho de ter esse dvd na minha coleção.
****¹/²

Revendo Eu, Robô, ficou claro que a opinião de antes (filme massinha) era inadequada. Dirigido com uma preguiça inócua por um diretor que já provou ser muito mais, a produção às vezes se salva como ação, e como bela vitrine de efeitos visuais de alta qualidade - destaque para o David de A.I., Sonny, o mais interessante uso do caro CGI. O visual também é interessante, acertando na direção de arte e na paleta, mesmo que não chegue nem perto de ter uma fotografia digna de menção. Smith se vira (ou não) num papel cheio de firulas que num bom filme seriam justamente chamadas de "desenvolvimento de personagem". Aqui, o herói-que-sabe-de-tudo-desde-o-início-porque-pensa-diferente-de-todos consegue até uma piadinha, que não salva nada e provavelmente piora a situação constrangedora. O braço mecânico, a visão da não-humanidade dos robôs, tudo funciona como conceitos, mas, graças a um roteiro pedestre, quase nada chega às telas como resultados aceitáveis. Para não dizer que não falei das flores, o uso das Três Leis da Robótica é bom, dando liga para uma trama que começa promissora, mas logo o roteirista abandona tudo (o mesmo pode ser dito de quase todos os envolvidos) para mergulhar de cabeça numa piscina vazia.
*¹/²

Cantando na Chuva é uma aula de diversão. Não só teórica, embora a discussão constante do mundo do entretenimento Hollywoodiano seja espetacular, cheia de pequenos detalhes e nuances (e grandes acontecimentos igualmente) que fazem o filme uma apaixonada aula de história do Cinema. Retratando os bastidores da sétima arte pelos olhos de uma das maiores indústrias cinematográficas do mundo, o clássico de Kelly e Donen ganha em frescor e em inteligência, informando, divertindo, inspirando curiosidade, divertindo, ensinando, divertindo...

E a aula continua metonimicamente, pois a parte prática da lição é o próprio filme (o plano final é particularmente feliz por isso), uma diversão atemporal de primeiríssima qualidade, com direito a um humor impecável (O'Connor é o personagem mais delicioso dos últimos tempos), números de dança espetaculares (dá até para reparar nos estilos diferentes de O'Connor e Kelly, que rouba a cena com seu charme e linguagem corporal), mesmo os de menor escala, e um positivismo tão contagiante que só A Noviça Rebelde consegue superar. Reynolds está excelente num papel apaixonante, Hagen evoca Norma Desmond para criar uma víbora a um passo de cair do pedestal, e Mitchell consegue, com austeridade incrível, entrar na proposta escandalosamente divertida. Junte-se a tudo isso músicas que causam sorrisos involuntários e um ritmo supersônico, e teremos um musical do jeito que não se faz mais.
*****

The Graduate é maravilhoso. Dustin em sua melhor performance que vi até hoje (reza a lenda, graças a um pedido por parte de Nichols de "não atuar" nas cenas), Bancroft fatal nos olhares, palavras e gestos, diálogos recheados de frases poderosas ("Você está armado?") e reveladoras (só num filme desses algo como "Porque eu não gosto de você" seria levado tão a sério), e uma narrativa ditada pelos personagens dão os tons diferentes de um filme tão complexo quanto as pessoas que apresenta. Se algo se sobressai mais ainda, é a direção arrasadora de Nichols, num exercício de planos, câmeras e montagem de que Hollywood certamente se orgulha até hoje. A trilha de Simon e Garfunkel não pode ficar de fora, com canções belíssimas que pontuam o filme de uma forma perfeita. O happy-ending ainda tem a decência de se deixar observar por alguns segundos, numa ponderação curiosa daquela conclusão.
****¹/²

Talvez o que há de mais fascinante em Marcados pela Sarjeta seja o timing quase irretocável do magnífico Robert Wise. Talvez seja a qualidade constante da comédia. Talvez seja a pungência do drama. Talvez seja a caracterização impressionante de Paul Newman. Ou talvez seja a qualidade homogênea de um elenco que nunca fica à sombra do astro. O fato é que essa pequena jóia de 1956 é uma peça de excelente Cinema, cheia de tiradas inteligentes e sustentado por uma narrativa de primeira. Wise sabe muito bem onde cada engrenagem funciona melhor, e não hesita em iniciar o filme como uma irresponsável comédia sobre... um grupo de irresponsáveis.

Wise sabe que a vida extrema de Rocky tem um padrão tragicômico, e não romantiza a situação difícil das ruas de NY. Sua mãe (Eileen Heckhart, num papel maravilhoso e atuação idem) só faz lamentar, e o filho só responde com um "Não se preocupe!" ingênuo, quase ignorante. A ignorância parece rondar o protagonista, que nunca se atém a regras e condutas, sempre fazendo o que quer, o que normalmente significa despejar sopapos em quem o incomodar - mais um sinal de que não há nada de inteligente no jovem.

Enquanto ele cresce, tanto em idade quanto em vivência, vemos o mesmo homem tomando as rédeas da vida, mas não através de cultura ou esforço para mudar. Ele dita a vida profissional, o boxe, através de seu ódio, e a emoção oposta, em igual intensidade, o torna uma pessoa afável, que DeNiro pouco reconheceria em 1980. Aliás, há muitas semelhanças com muitos filmes: Touro Indomável, Menina de Ouro, Laranja Mecânica (ele se esforça para "andar na linha", mas isso lhe é negado), qualquer filme em que DeNiro é um ítalo-descendente (que tem clara inspiração na personificação gritalhona e desleixada de Newman), são grandes obras que reconhecem as qualidades deste pequeno clássico.

Nada é perfeito, então ressalto que a edição e suas elipses bruscas se encaixam perfeitamente em alguns momentos, e nem tanto em outros, e a trilha sonora não soa nada bem - tanto que sua absência em algumas cenas é um grande acerto. Não obstante, várias seqüências são inesquecíveis, como a triste cena da visita da mãe, a linda e hilária chegada de Rocky após sua primeira derrota, o tocante encontro de pai (Harold J. Stone, ótimo) e filho, a luta final, filmada de forma agoniante (o diretor usa uma catarse momentânea de modo impecável), e mais... Acompanhado por sacadas geniais ("Não é minha culpa que ela está grávida!") e diálogos sensacionais (é de arrepiar o que a mãe de Rocky diz a Norma em dado momento), esse filme não pode ficar de fora de nenhuma vida de cinéfilo. Fãs de Paul Newman, especialmente, verão nessa bela obra uma grande oportunidade de ver em total glória o distinto ator.
****¹/²

Segundo na mostra especial de filmes com Paul Newman, vem Roy Bean - Um Homem da Lei, uma diferença brutal, já que Marcados pela Sarjeta é um baita filmão, e esse é fraquinho. A direção de Huston começa bem, entrando perfeitamente na linha "faroeste em live-action inspuirado nos Looney Toones" (completo com um vilão albino hilário), assim como todo o elenco - cujo grande destaque é, claro, Newman, que tem algum espaço para explorar a divertida proposta; sem falar em Perkins, totalmente à vontade num papel divertido. Infelizmente, detalhes como a incomum narração em off começam a fraquejar, já que esta é uma boa idéia que é pouquíssimo explorada. Igualmente a idéia de ridicularizar a Lei estadunidense da época é sub-aproveitada, e o roteiro foca apenas o absurdo das leis o Juíz Roy Bean. Mas o prego no caixão é com certeza o final, uma escolha ridícula do roteiro em dar um tom elegiático ao que, até a hora e meia anterior, tinha sido tratado com acertada ironia. Fica até clara a confusão perante o fim da narrativa, com a morte mais importante do longa nem sugerida, conclusões que não se sustentam e uma tentativa constante em reparar a cagada anterior, alongando os últimos minutos de forma sofrível.
**

Eta filminho chato de comentar. Buffalo Bill, de Robert Altman, é cheio de ambições, querendo denunciar, de uma tacada só, o estrelismo exacerbado (numa jogada anacrônica que funciona) e a política norte-americana. O primeiro é bem desenvolvido, com o carisma gigante de Newman sendo posto de novo em bom uso (embora o filme tenha problemas um tanto sérios de foco em relação ao protagonista), participações sempre engraçadas de sopranos que vivem 24 horas por dia cantando e um Harvey Keitel panaca de dar dó. Quando os índios entram na jogada, o tom irreverente é abalado, e o filme não resolve tornar a postura dos índios nem solene, nem cômica, e balança numa corda bamba que torna vários momentos arrastados - o que é uma pena, pois Altman tinha Sampson e uma ótima caracterização do Touro Sentado a representar esse fascinante povo. A política cai de pára-quedas, e consegue alguns bons momentos, especialmente quando é vista como um baile de máscaras tão carnavalesco quanto o espetáculo de Buffalo Bill, mas, dada a importância do tema e a potência das idéias, é assás sub-aproveitada. O filme no geral é bem perdido, foca em coisas que não acrescentam nada, e só ganha quando desenvolve o papel de Bill e sua síndrome de pop-star.
**¹/²

Butch Cassidy e Sundance Kid é daqueles filmes de se ver sem ter idéia de como é. Fui assim, só conhecendo o elenco e a identidade bandida dos personagens-título, e foi delicioso descobrir uma obra sensível e cheia do mais certeiro humor. A química entre Redford (numa atuação grandiosa, sempre pondo um pé em vários estereótipos e tirando logo em seguida) e Newman (que cativa com litros de carisma e uma auto-confiança que sai do lugar comum do bandido durão) é o que sustenta todo o clima do filme, permitindo criar todo um castelo de boas escolhas - não que sejam todas fáceis. O tom cômico já não é nada fácil de costurar junto da seriedade da vida dos protagonistas, mas Roy Hill acerta na mosca, balançando um aspecto seco - principalmente através do primoroso desenho de som, que predomina num filme de pouca música - com a leviandade com a qual os dois levam aquela vida - canções como "Raindrops Keep Falling On My Head" são a oposição perfeita.

Mas o movimento é de dentro para fora, com o espirituoso humor surgindo de Butch e Sundance e batendo de frente com a realidade bruta do Velho Oeste, ressaltando que a escolha "incoerente" quanto ao ambiente foi tomada pelos personagens - a tomada final, apoteótica, diz tudo. E mesmo com um conteúdo excelente, a embalagem também impressiona, com câmeras ágeis e inventivas e uma fotografia tão cheia de composições belas que até mesmo aquela paisagem violenta parece um lugar sublime para se viver. E a máxima do filme é exatamente essa: é um lugar sublime para se viver. Qualquer lugar é um lugar sublime para se viver. É só saber se virar, mesmo que isso signifique aprender um pouco de espanhol. Butch e Sundance passam uma imagem irresponsável, fazendo de Etta uma figura tão séria quanto um homem-da-casa. Não tem como a quebra de convenções ficar mais saborosa do que nesse filme.
*****

Se um filme tem o poder de mostrar como as pessoas destróem seus semelhantes, quase como um conto de alerta, esse filme é Desafio à Corrupção. Os olhares que são disparados pelos recintos no começo do filme parecem conter alguma tensão ou conselho, camaradagem ou alerta amigável, mas logo fica claro que tudo que os olhos trazem é informação, dados, estatísticas, fatos e ponderações totalmente frios, desprovidos de significado que não seja absolutamente calculista. A derrocada Eddie Felson (Newman, descascado de charme, revelando uma amargura aguda) é mostrada com calma, não com a calma bondosa de roteiristas ou diretor que quer saborear os últimos momentos humanos de um personagem, mas uma calma gélida, focada em compreender o processo nada simples que leva ao desfecho arrasador. Nada é gratuito no roteiro, e o que é explicitado só o é por bons motivos.

Pode-se argumentar que o filme "deixa de lado" muitas ponderações poderosas, e que só dá voz ao que há de mais básico e simples nas vidas dos personagens. Mas isso reflete a sensação pavorosa de se ver, de repente, morto, seco por dentro, e não ter tido a sensatez - ou sensibilidade? - de perceber enquanto esse processo de destruição interna ocorria. Os monólogos deixam os resultados e as causas mais óbvios à mostra, pois é o espectador o encarregado de ver as nuances da dolorosa trajetória de Felson. Auto-destruição, no entanto, não é só o que testemunhamos, pois Sarah surge (Laurie, intensa em todos os níveis) como uma vítima direta da vida que o protagonista almeja viver. Não há piedade ou perdão; se ele não sabia o que custaria para ser o que queria ser, não há alento nem na ignorância. Há o vácuo da vitória, o copo vazio - que, cheio da bebida certa, torna todos humanos, pois derrotáveis -, e o dinheiro, o dinheiro e a glória, combustíveis do não-Homem há séculos. Impensável sacrificar, em favor de um texto mais fluido, Scott, um arrepiante mentor, e Gleason, com suas nuances recrudescidas.
*****

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

13

Duro de Matar
Ouvir falar é uma coisa. Saber o que é é outra completamente diferente. E é o segundo tipo de expectativa que tento evitar a qualquer custo com filmes famosos, pois os comentários e o hype são inevitáveis. Consegui com Duro de Matar. Sem ler sinopses, mal sabia eu que estava prestes a ver um filme que se passa inteiro num local só, contando com uma situação única - ao que um Velocidade Máxima da vida se vale de mais de duas para ser minimamente interessante. Mas vamos falar de coisa boa. O roteiro de Stuart e Souza consegue não só desenvolver o plot e os personagens de todos os melhores modos (atentando ainda ao próprio gênero com fina ironia, sem perder as raízes macho, pronunciado "matcho"), como também cria deixas que McTiernan leva a extremos espetaculares: as cenas de ação.

O diretor usa a ótima edição, a surpreendente fotografia de De Bont e câmeras inspiradas para elevar as pancadarias e tiroteiros a um nível insano, misturando tensão, catarse e adrenalina pura em doses perfeitas - por sinal, esse filme é um terror para gente com vertigem. Os efeitos especiais completam a experiência explosiva com uma dose de realismo e brutalidade (O Procurado, filme de alta classificação etária, é uma das poucas comparações recentes em termos de violência gráfica) que só intensificam o filme. E como se não bastasse, o elenco é liderado por Willis, carismático até a medula, VelJohnson, um parceiro memorável, e Alan Rickman (outra surpresa para mim), como um dos vilões mais fodas que já vi. Sua própria escalação é prova de que o antagonista tiha a obrigação de arrasar; como se os resultados não comprovassem isso, já que Rickman rouba todas as suas cenas. Um belo retrato do gênero (mesmo sem conhecer bem o alvo das ironias e das homenagens, o tom é perfeito) e um filmaço divertido pra cacete.
****¹/²


Kwaidan - As Quatro Faces do Medo

Vi a obra de Masaki Kobayashi como uma experiência estrangeira: não é totalmente compreensível, confunde, surpreende e impressiona. Embora a maravilhosa direção e o visual acachapante sejam bem universais, as diferenças culturais se fazem valer a todo momento, não só dentro do filme, como também na reflexão externa da criação de Kobayashi. Vários porquês ficam perdidos no limbo dos oceanos, e, talvez da forma mais acentuada dentre todos os filmes japoneses que já vi, o escrutínio revela distinções colossais entre culturas, resultando no estranhamento. É nessa linha que o filme causa uma impressão diferente, talvez mais fraca para mim que para um japonês, mas, quando não apavora através dos sons e músicas de outro mundo e das imagens singelamente macabras, o susto que se toma é relacionado à disparidade tão gritante entre dois tipos de sociedades, tornando muito do que é feito lá um jogo de quebra cabeças com dezenas de peças faltando. E como bizarrice pouca não é bobagem, a experiência encontrou um eco inesperado enquanto eu pensava: vejo semelhanças para com um filme que não poderia ser mais formalmente diferente, Macunaíma, outro retrato do imaginário de uma nação.
****¹/²

O Resgate do Soldado Ryan
Ao passo em que temos Spielberg mais violento que de costume, em seu segundo filme sobre a Segunda, há uma preocupação com o lado humano, que é sempre tangente. Cenas de boa dramaturgia acabam perdidas em meio a algumas tentativas falhas de criar personagens envolventes, problema que poderia ser compensado pela menção de apenas tanger aqueles seres humanos, afinal, apenas mais um, mais três, mais mil corpos na guerra, mas essa intenção é raramente pronunciada - no caso, pelos monólogos nostálgicos. As tomadas em que o tecido patriótico torna-se translúcido, visto à luz de algo mais, são a prova de que Spielberg tentou, mas não conseguiu com grande força.

No entanto, a energia das longas batalhas, a brutalidade e o realismo parecem afogar tudo isso, completando o filme em desespero e coerente rispidez, saindo do apuro estético do diretor (aqui ressaltadíssimo) e caindo num visual que em segundos se torna fadado à tragédia - é quando o sangue jorra que as cores dão o ar da (des)graça. Agraciado ainda com belas atuações do extenso elenco (Davies e Pepper são personagens ótimos), e com ritmo maestral, o último defeito digno de menção é a trilha sonora, incapaz de ver o patriotismo através da luz desesperada e humana que o excelente diretor de fotografia Kaminski encontra. Apesar de suas falhas, o filme impressiona bastante pela energia insuportável conferida ao que realmente importa na guerra: os confrontos, que podem ser chamados de desumanos, mas que são simplesmete a base da sociedade de nossa espécie.
***¹/²

Fale com Ela
Indo além do corpóreo, elevando-se, segundo a professora de balé, da terra ao etéreo, o filme de Almodóvar consegue se despir de jogos de certo-e-errado sem passar batido por eles, analisando os eventos de forma tanto fria quanto sentimental, e deixando um claro "foda-se" para os julgamentos legais, morais e éticos. O que estão lá são os fatos, e muitos deles são influenciados, direta ou indiretamente, por sentimentos, oferecendo uma visão belíssima (e abrangente) da vida. Enquanto um personagem diz que não é fácil ter fé, vemos que Martín (Cámara, desconcertante em sua fragilidade e resolução) viveu quatro anos em uma fé inabalável; enquanto o próprio Zuluaga (Grandinetti, lidando perfeitamente com um personagem bastante complexo) se mostra amoroso e frio em momentos diferentes, ao que os sentimentos que ele não nutre por Lydia e os que nutre por Martín não diferem tanto em "loucura".

O roteiro utiliza fludíssimas idas e vindas no tempo, e impressiona a todo momento com sua enxutez, ritmo e sensibilidade, ao que Almodóvar responde com uma direção que só ressalta essas qualidades. Não é (nem parece) fácil o escrutínio moral cuidadoso que Pedro faz, e isso engrandece o filme com complexos diálogos com os vários aspectos da vida - é muito fácil, por outro lado, se envolver, mesmo que as situações nos filmes não sejam nada usuais. Aqui a tragédia é parte da vida, assim como as complexidades, ambigüidades, diferenças, segredos, surpresas. Tudo que surge como elemento do texto se torna parte pulsante da vivência dos personagens, com os intérpretes respondendo a tais estímulos de forma emocionante. Dessa forma, a estética poderosa de Almodóvar consegue se fazer presente sem se fazer notar, e, quando acabamos por ver que a parede é amarelo-gema e os móveis, vermelho-sangue, parece algo absolutamente adequado, intrínseco às visões do dia-a-dia daqueles personagens assim com o roteiro o é às vidas deles. Afinal, assistir à vivência é quase oposto a viver.
*****

Se mais pro finalzinho, Akira se revela um filme criacionista, é apenas para engatilhar uma poderosíssima arma narrativa, que, nas entrelinhas, faz uma análise brutal do espinhoso tema religioso. A visão de uma criatura toda poderosa, toda sapiente e toda geradora, não só é ácida, como também diminutiva, apontando para um Deus que caiu de pára-quedas num Universo criado para conter um ser destrutivo e demente. Através do roteiro lotado de teorias mirabolantes (algo que esse filme lançou ao mundo e se tornou referência para animes seguintes), a história se desenvolve em ritmo supersônico, mas sem atropelar momentos relevantes para a encorpada narrativa - uma pena que os personagens permaneçam enraizados em estreótipos pra lá de preguiçosos, o que só torna o final, intendidamente emocionante, um tanto insosso.

Nada que não fique menos irritante em meio à animação esplendorosa e espetacular, impecável como representação da realidade e regada a um estilo futurista de cair o queixo. A direção tem uma força toda especial, pois Otomo não se limita a mostrar como as coisas são naquele mundo: ele também sabe explorar esse mundo da forma mais empolgante, com um uso de ângulos, movimentos e cores que, num filme live-action, mostraria impressionante manuseio de câmeras e fotografia. A música só engrandece, com uma presença notável, às vezes impositória, na cena, e, do começo ao fim, causa deslumbramento. O filme em si tem esse efeito a quem vê hoje em dia. Quanto a quem viu à época, não sobra dúvida, afinal, o filme se tornou referência inegável.
****¹/²

Há de se louvar a experiência de Sandro. O que ele faz, em termos morais, amorosos e sentimentais é de uma profundidade que poucos teriam coragem ou paciência para agüentar. Ou seria maturidade? Em A Aventura, a maturidade do indivíduo não está em cheque, mas sim a maturidade do homem perante códigos de ética e convenções do sentimento que são adotadas há milênios. Claudia também merece elogios apaixonados, pois consegue se entregar (a um homem, à alegria, à melancolia) de uma forma completa, sempre confusa em relação ao porquê de fazê-lo, mas nunca hesitante sobre a decisão.

Anna é o mote, mas some de pronto, procurando sua aventura sabe-se lá onde (talvez conseguindo, diferente dos outros), e não dá pra saber se ela queria ser o MacGuffin daquela procura, ou se simplesmente queria deixar tudo para trás. Se ela é tão similar a Claudia (ambas parecem precisar de seus momentos sozinhas, e ambas têm um claro vazio interior, ao qual parecem ser afeiçoadas), não deixou tudo para trás com tanta facilidade. No entanto, Antonioni escolhe Claudia e Sandro, que tentam se aventurar mas têm a presença fantásmica de Anna como ameaça - o diretor deixa claro a futilidade dessa lembrança ao não fazer Anna retornar, tornando a apreensão do público, preso às amarras formais (morais) do cinema (da sociedade), a dos personagens.

E enquanto Claudia vê a mulher desaparecida como perigo de perder o amor, Sandro, que se entregou pelo extremo sentimental oposto (e aí reside sua coragem, em viver duas mulheres como elas), só encontra o eixo com a cônjuge depois de um ato tipicamente masculino, e nada original. E, invertendo uma regra clássica (algo que o filme faz desde o começo), faz desse ato um começo. Um começo absolutamente atípico para o que, certamente, será típico dali em diante. Não por acaso, a beleza das composições e dos gestos dos dois brilhantes protagonistas (duas constantes nessa obra-prima) alcançam o pico no final, numa imagem em que o etéreo e o sólido se juntam em depressiva harmonia.
*****

Vestígios do Dia
Enquanto assistia ao filme de Ivory, algo começou a ficar estranho. Enquanto a trama se desenrolava, em meio a grandes diálogos e um belo roteiro, o personagem de Hopkins vai se tornando mais denso, embora não seja adequado dizer que o filme explora camadas do Sr. Stevens, pois isso seria intrusivo demais para o personagem. Ao fim, o incômodo se revela como a escolha narrativa de Ivory e Jhabvala, que tornam eventuais vários momentos que casariam muito bem com um ritmo mais etéreo de reflexão. Hopkins entende isso, e sua fenomenal performance está calcada em dois pilares, sendo um deles o catáter reflexivo de seu personagem, e enquanto Ivory e Jhabvala permitem isso, eles não dão ao filme essa mesma oportunidade de destacar-se do mundo externo que o ator alcança - a cena apoteótica é aquela em que ele é pego de conversa pelo afilhado do patrão, pois ele demonstra estar totalmente imerso em si, e seus serviços, mecânicos, não interrompem sua violenta reflexão em momento algum. Eles preferem uma formalidade narrativa convencional, que pode não ser incoerente, mas que faz o filme ganhar de um lado e perder de outro.

O diretor e o roteirista perdem a chance de criar curiosidade, de fazer o expectador querer entrar na mente de Stevens, pois deixam, paradoxalmente, que a trama da Segunda Guerra se forme muito clara e intrusiva, enquanto não há nenhuma ressonância narrativa sobre a relação disso com o mordomo - a direção de Ivory surge convencional demais para impor à narrativa as elipses e lacunas que o teriam feito mais coerente. Apesar disso, é absolutamente inegável que o que importa, a relação de Stevens com a Sra. Kenton, salvo uma cena, é tratada com sutileza belíssima (a cena do ônibus é excepcional por mudar a perspectiva), e conta com a resposta forte de Thompson, que dá profundidade e uma postura totalmente correta a seu ótimo personagem. Também é necessário ressaltar a trilha sonora, formalíssima e austera, por baixo da qual uma melancolia habita sem subir à superfície, assim como a vida do Sr. Stevens, em que Hopkins encontra o outro pilar de sua atuação: a violenta, repressiva dignidade a todo custo.
***¹/²

Revi Entrevista com o Vampiro, e caiu mais ainda no conceito - antes eu achava um filmaço, revi e achei um ótimo filme, e agora acho um filme bom. Os anos 90 realmente ser dominados por filmes de época de narrativa inadequada, já que até esse filme, que tenta fugir de convenções com bastante força, cai numa passagem de tempo ineficiente e pouco inspirada. Há a tentativa de fluidez, com acontecimentos engatados um atrás do outro, mas a passagem das décadas, séculos, é comprometida em certo grau. Mas é a dramaticidade que mais perde, com, por exemplo, o "retorno-dos-mortos" mais abrupto e apressado que já vi. Bia Falcão teria muito a ensinar para Tom Cruise.

Aliás, ele está bem, disfarça certas limitações com um despojamento que ajuda a compor a figura de Lestat, e se Banderas e Pitt estão também bons (ou seja, sabem incorporar um charme sobrenatural e uma dramaturgia o.k.), é Dunst que se sobressai, roubando as cenas de todos os seus famosos (e formosos) colegas de trabalho, impondo a força e revolta que Louis demora a alcançar e que Lestat já transformou em humor negro. Para os que adoram o sangue poético de Sweeney Todd, aqui ele ganha uma conotação bem diferente, mas igualmente forte em significância. Menção honrosa para o figurino, que só torna os vampiros criaturas mais sensuais ainda.
***¹/²

Terra de Ninguém
Quem precisa de explicações? Quem precisa de psicologia cinematográfica, aquela mania de achar que ações têm de ser profundas, como se camadas e camadas de psicose fossem tornar um ato mais complexo? Dirigindo como se fosse Monica Vitti, Malick acompanha uma jornada surreal que, em seus momentos mais libertadores, parece uma irresponsável viagem sem objetivo. O filme quer constantemente se desatar de grilhões, assim como seus personagens, que agem de forma totalmente impulsiva, sempre fugindo de pessoas para que tenham "liberdade para se libertar" das decisões prévias e planos que acometem a mentalidade de todos - não à toa, o clímax é o momento mais poderoso do roteiro, em que a impulsividade atropela um momento-chave e não se torna clichê.

No que soa constantemente como improviso, o roteiro acompanha Holly e Kit em lugares cada vez mais vazios e ricos em opções, na visão do casal, que o diretor adota com paixão. O olho sublime de Terrence está sempre atento às paisagens, aos pequenos elementos do ambiente, do céu, da terra, da água, pois sabe que neles reside a liberdade dos protagonistas. É algo natural, porém, uma visão comum, sem um porquê de existir, uma beleza que sempre esteve lá e está sendo capturada em tempo real. Essa é a metáfora mais forte para a libertação de Kit e Holly, que nem sempre toma rumos esperados, mas sempre soam sinceros, inocentemente irresponsáveis, ao que a trilha sonora abraça a polêmica escolha.

Os parcos diálogos e as atuações enxutas de Spacek e Sheen são constantemente interpelados pela direção e pelo roteiro, que os apequenam, em voz e tamanho, para valorizar as ações e imagens, como se o que eles dizem não tivesse muita importância. Mas a capacidade de esmiuçar suas personalidades sem pseudo-psicologia torna o ato de deixar os diálogos em segundo plano quase irônico, como se Malick oferecesse uma visão "abrangente" e factual para os acomodados. Embora não acerte sempre, a narração faz parte desse belo jogo simples-complexo.
****¹/²

O Dia Em Que A Terra Parou (2008)
Fica bem difícil decidir o que é pior na grande bomba do novo ano (menos de um mês, e já é difícil dizer que algum filme no ano inteiro conseguirá ser pior), então é mais fácil ir por partes:

Efeitos Visuais: Bem o que importava já começa mal. Seja por GORT, que parece 10x mais falso que um chinês de dois metros e meio vestido com uma roupa de látex, seja pelos insetos mais mal feitos (e simplesmente imbecis) que uma empresa de FX já teve o desprazer de criar, quase nada funciona. Não tiro, no entano, o mérito da bonita bola de gude gigante, que parece ter algo dentro, mas resolve seguir o estilo do filme e só se perfazer. Menção honrosa para telas verdes mais orgulhosas que eu já vi.

Trilha sonora: O trilheiro safadinho conseguiu contornar as ordens ("Queremos música que não faça diferença nenhuma no filme"), e em alguns momentos, conseguiu fazer faixas assustadoramente estapafúrdias. Ponto pra ele e pro filme!


Edição
: Se John Cleese já não estivesse se envergonhando o bastante com seu personagem eviscerado e mutilado (figurativamente, eu acho, não deu tempo de reparar no físico do... cientista?), o editor resolveu cortar as falas importantes(sic) como se fosse um programa de culinária, para não perdermos nada. Claro que os fade-outs e a cadência das sub-sub-tramas (1 sub por serem menores no filme, e outro sub por serem menores em termos absolutos) são matematicamente calculados para dar vida às cenas. Isso é alcançado tornando tudo tão desconjuntado que parecem centenas de filmes colocados um atrás do outro.

Elenco:
*Ok, Connelly, nós sabemos que você queria só a grana... mas dar um sorrisinho de sabichona na primeira e última cena em que você se mostra importante já é forçar amizade.
*Sr. Cleese, acho que, mesmo vindo de lugar nenhum e indo pra merda em 5 minutos, deu pra ver que era você.
*Bates, inválidos devem ganhar dinheiro mais digno. Incorpore Annie Wilkes e marrete seus próprios pés pra parar de sofrer.
*Hamm, morrer no final tava no script, mas não deu tempo de trocar umas beijocas com a gata de olhos azuis ao seu lado? Se fosse você, eu xingaria esse roteirista ousadíssimo.
*Chandler, você não é mais bonito que Adrien Brody.
*Smith Jr. ... limpa esse nariz.

*Keanu, dou meus parabéns por fazer algo que nenhum outro ser humano conseguiria ter feito: segurar o riso ao dizer aquelas falas. Mas um pouco de sexo ajudaria nessa carranca, fica a dica.

Direção: Sabe quando um diretor tenta criar um plano bonito e quase chega lá? Bom, Derrickson erra o gol tão feio, mas tão feio, que chega a dar dó de ver que ele tentou.

Roteiro: O tchauzinho de GORT, que se transforma em N mols de cupins daquele episódio do Pica-Pau e resolve brincar de esburacar a Maçã, é a metáfora perfeita: o script (na metáfora, o robô, saca?), que já não era lá muito convicente e interessante, vira uma massa de bichos geográficos que não têm ligação nenhuma (como os elementos da trama(, resolve atirar pra todo lado pra não ter como errar, erra mesmo assim, nas partes e no todo, e escurecem o céu que contém a resposta que todos na sala querem saber:

QUE DIABOS EU TÔ FAZENDO AQUI?????

Não tem como comparar a elaboração da Pixar com a da Disney. Se fôssemos colocar a inteligência de Wall•E perante a de Bolt, o vencedor ia ficar claro em 5 minutos de projeção. Mas não é na inteligência que o filme do supercão ganha pontos, e sim em sua excepcional execução e no claro apelo infantil. Não faltam sacadas espertas e oportunas, jogos entre gêneros cinematográficos e temas interessantes, mas é com o excelente senso de humor que essa produção cativa seu público-alvo. Os personagens, ótimos, fazem sua parte gloriosamente, evitando inclusive uma caracterização irritante de suas “maluquices”. O que não dá pra evitar são os clichês, numerosos, e uma mensagem pra lá de batida, e já que estou nos pequenos problemas, ainda devo citar a trilha sonora, bem mais derivativa que o esperado.

Por outro lado, temos grandes cenas de ação (algo que o filme pede), uma narrativa enxuta e graciosa, uma deliciosa brincadeira anti-prosopopaica (mais interessante ainda que a vista em Os Sem-Floresta) e um fator-fofura altíssimo, cena após cena conquistando a platéia através de seus animais fofos, que se tornam mais que isso: personagens muito bons e bem explorados. Mittens e, principalmente, Rhino vão ganhando charme durante a projeção e conseguem escapar da armadilha fácil dos alívios cômicos. Por sinal, é uma surpresa que um gordinho fanático e hiperativo surja como um personagem divertidíssimo, e o mesmo pode-se dizer da gata com mania de pé-no-chão – o roteiro dosa muito bem as características mais potencialmente chatas dos dois. Não que os alívios cômicos reais, os pombos, não sejam excelentes, pois servem como comentário passageiro para a vida na metrópole – o sotaque paulistano foi um toque hilário.

Embalado num visual maravilhoso, seja pelas formosas pinturas que substituem cenários digitais ou pela excelência da renderização computadorizada, Bolt encontra sua grandeza na simples (e ao mesmo tempo nada simples) capacidade de envolver e divertir.
****

Extra, extra, extra! Com vocês, o IMAX. Assisti a Fundo do Mar 3D numa tela de 14m x 21m, e a experiência realmente é digna de menção. O atrativo de ser um filme em 3D faz tudo mais espetacular, tornando a sessão um evento de realismo e envolvimento consideráveis. Há uma confiança no sublime das imagens, pois não há muitos daqueles sustões de sempre, e isso merece elogios. Mas a beleza dos eventos filmados não causa a estupefação ao qual o filme almeja, e outro tipo de confiança pode ser culpada.

Eu, que assisto a documentários da vida selvagem com relativa freqüência, só posso lamentar a pobreza absoluta do texto que Kate Winslet e Johnny Depp narraram na versão original, e tenho de associar essa pobreza à certeza que os produtores tinham de que o espectador estaria maravilhado demais com o que está vendo para prestar atenção nas palavras. O problema é, tampouco as imagens são exemplares. Têm seus momentos de simpatia e beleza (a noite de reprodução dos corais) e ganham uma dimensão estarrecedora em IMAX, mas, diversas vezes, sofrem de uma banalidade um pouco cansativa. Danny Elfman às vezes exagera ao tentar espantar esse cansaço, mas cria composições belas, e os efeitos sonoros, nada sutis, também ajudam a tornar extra-ordinário algo que de extra pouco tem.

Ao final, que não sei se chega tarde demais (já que o documentário não é grande coisa) ou cedo demais (40 minutos é uma metragem decepcionante), acabei fazendo uma cisão, separando o filme em duas experiências distintas: uma, a de assistir ao que o filme é, um registro da vida marinha; a outra, a de desfrutar de um avanço tecnológico que visa tornar o espetáculo cinematográfico algo tão grandioso quanto uma certa imagem de um trem indo em direção à platéia. O primeiro, Fundo do Mar, é fraco, mas a relação com as imagens e com o diferente estilo de assistir um filme que o IMAX (mais a tecnologia 3D) proporciona, é uma grande promessa para o espectador.

Fundo do Mar: **
A Experiência IMAX: ****


Apocalypse Now Redux
Como se não bastasse o niilismo violento que torna Apocalypse Now um filme paradoxalmente chocante, o filme ainda se propõe a tornar complexa essa relação do homem com a guerra, fazendo uma escalada moral, temporal e psicológica que conecta todos nós à loucura absoluta. Por exemplo, o personagem de Sheen dá de cara com inúmeros cenários de batalha, e todos os militares parecem loucos - exatamente a característica-chave do homem que ele deve assassinar. Ele começa a ver Kurtz como um homem razoável, perante toda aquela loucura. Chegando lá, num confronto cósmico, ele se vê de cara com um Brando inteiramente possuído por um demônio xamânico, e não é capaz de julgar aquilo.

O homem parecia mais lúcido que os outros, e em partes, ainda parece. Mas lá, em sua iluminação demente, o General se tornou a apoteose da loucura, da crueldade, do real espírito do ser humano quando confrontado com a natureza desesperadora do mundo de que veio. O homem só pode perder a razão quando deve encarar a realidade que nossa raça tanto se preocupou em afastar com um escudo civilizatório. Longe de justificar a guerra ou as crueldades menores, Kurtz e os outros comandantes que surgem antes dele provam que cada um reage ao horror de um modo diferente, mas nunca natural, louvável, ou digno das inescapáveis medalhas que receberão. Um homem que mergulha em seus instintos se torna um animal, e o que Apocalypse Now traz é a visão do horror supremo: a irracionalidade da natureza, a incompatibilidade do homem com esta. O resultado? Algo muito mais grotesco que um sacrifício animal (mata-se a besta, e nada muda) ou a Lei da Selva. As tortuosas ramificações e os monstruosos poderes da sociedade regidos por uma completa e absoluta arbitrariedade.

Um soco no estômago sem tempo de respirar: não podemos mais voltar para uma natureza que nos tornaria "humanos". Devemos viver com nosso mundo desfigurado. Cruel? Não. Justo.
*****

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

12

Fargo:
Os Coen têm fixação em oferecer perguntas e deixar as respostas para o espectador. E normalmente, são perguntas sem resposta. Os filhos-da-puta estão basicamente jogando no nosso colo questões essenciais sobre a sociedade atual, e dando as costas. Querem eles só criar, a partir da raiva, a obsessão por encontrar a solução, ou eles simplesmente estão dizendo "Não, isso não tem resposta"? Eu não chamaria de acomodadoo partidário da segunda opinião. Os Coen mesmo parecem bastante categóricos ao criar situações desorientadoras e um roteiro mais cheio de lacunas que DNA de T-Rex. Motivações, decisões, pensamentos, reflexões, tudo é atropelado a favor de uma narrativa baseada em um caso real, demonstrando como os roteiristas pouco se importavam com a fluidez clássica do roteiro.

Dentro desse microcosmos de caos, no entanto, tudo faz sentido, com a tagline "Você não vai acreditar" se fazendo valer a todo momento, mesmo quando um acontecimento é previsível. O absurdo da trama causa um estranhamento que Paul Thomas Anderson usaria mais tarde, com tanta propriedade quanto, e o resultado da empreitada dos Coen não poderia ser mais inversa em tom, já que o efeito de "Fargo" é riso nervoso e deslumbramento aparvalhado. Eles não estão atrás de uma explicação para os fatos, eles querem se apropriar dos fatos narrativamente, com uma pegada nada esclarecedora e um clima de nonsense que pode parecer fácil, mas diz muito. O elenco entende isso perfeitamente, desde o confuso Macy e sua parva esposa, passando por Stormare e Presnell, frios cada um de seu modo, até Buscemi, que se conhecesse o personagem de Macy melhor iria se bastante.

Mas o show é de McDormand, perfeita em todas as suas cenas, mesmo em uma que pede seriedade e tensão. No geral, ela vê tudo com despreocupação, e poucas coisas podem fechar sua cara - a comparação com as atendentes de hotel é brilhante - a não ser... E essa fofura não mascara absolutamente nada, mesmo quando cai no humor negro. Meu mote se faz valer: "Só os Coen, mesmo".
*****

O Eclipse:
Vittoria é incomunicável. Ela parece dizer muito para si mesma, discutir consigo, fazer decisões, criar outros alguéns internos para ver a vida de todos os jeitos possíveis. Ela não precisa de outros para ser ela mesma. Os outros na verdade ferem seu jeito de ser, só no amor, nessa cegueira febril que nos acomete vez ou outra, em períodos longos ou curtos, que ela realmente consegue ser ela mesma e não sofrer: ela se torna outra. "O Eclipse" é sobre o hiato pós-amor, o momento em que Vittoria passa a viver com sua antiga "eu" de novo - ou ela não é mais a mesma?

Nesse meio tempo, ela se encontra silenciosa, ocasionalmente inalcançável, com amizades calcadas em atos, muito mais que em palavras - seja com uma vizinha semi-conhecida, seja com o cachorro dela. O advento de Piero é providencial, ele também vive numa cápsula que não permite comunicação externa. A Bolsa é uma metáfora primorosa, não só comparando sua gritaria com os silêncios do filme (Antonioni claramente mostra como gritos e até palavras pouco se fazem entender, dando uma belíssima alfinetada nos possíveis críticos) e mostrando como aquela euforia se torna profundamente entediante (quem tem medo de Antonioni?), como também mostrando que até mesmo naquele caos, os presentes se compreendem - o que se contrapõe às dúvidas constantes de Vittoria.

O roteiro também se esforça para mostrar a complicação que é a venda de ações, títulos e etc., pois tudo isso se torna trivial e básico (é dinheiro pelo dinheiro) quando comparado aos sentimentos humanos - a protagonista às vezes não sabe o que sente, tampouco o que quer. Os diálogos são às vezes sutis ("Mas fui eu quem chegou antes", a declaração mais linda que já vi), às vezes sintéticos ("Ela não é uma pessoa que desenha florzinhas") e sempre inteligentíssimos em sua profunda análise dos sentimentos, personificados com complexidade pelos mínimos gestos de Vitti, assombrosa - pra não dizer estarrecedoramente linda. Um filme para viver de longe, caso contrário, cai-se no vazio dele. *****

A Companhia dos Lobos:
Talvez uma das fábulas mais curiosas que já vi, o segundo filme de Neil Jordan resgata aquela soturnidade tipicamente fabulesca (antes da amenização popular, claro) e carrega nas tintas macabras para contar a velha história do Lobo Mau, ganhando força por não amenizar uma história claramente violenta. O que Jordan faz é criar um ótimo clima macabro, recheado de cenas bizarras e histórias grotescas, e poetizar o que era usado, à época, como contos para aterrorizar crianças e dá-las um encaminhamento ético. Assim, a cabeça de gesso se espatifando e a que cai no leite criam cenas de violência latente, cujas elipses (que criam a poesia em tais brutalidades), em vez de amenizar, dão outra interpretação ao que já se firmou como ato violento. A sexualidade latente também está presente, como na língua obscena, nos vários corpos nus, no conceito de meios-termos (adulto x criança, lobo x homem) e nas seqüências de ataques, filmadas em câmera lenta, para denotar violação, usurpação da infância e da espécie plena, de forma aterrorizante e, não por isso, evitando passar uma sensação sublime e bela. Jordan parece corroborar essa indefinição, e disso nasce algo novo, e seu filme por conseguinte. ****

O Dia em que a Terra Parou:
Começando de forma documental, informacional (ecos da paranóia induzida por Welles em 38), o filme logo se desenrola em uma complexa análise da Humanidade da época - podendo, igualmente oportuna, ser aplicada para os dias de hoje. O filme sobrevive ao tempo graças à sua universalidade, mas, principalmente, por não facilitar a abordagem que adota. Pode parecer inocência dizer que o mundo é infantil e que as guerras são todas sem sentido, mas o roteiro se apropria dessa idéia e a subverte completamente, jogando na cara do espectador aquilo como uma verdade inegável. Temos uma necessidade de justificarmos, através de minúcias detalhistas, como é difícil a aliança entre os humanos, lavando as mãos para nossos próprios conflitos - gerados, total e absolutamente, por imbecilidades como território, religião e diferenças culturais. Klaatu não simplifica, ele deixa claro que a compreensão entre todos não é fácil, mas a diferença é a resolução de seu povo, em criar uma paz forçada, quase ditatorial - afinal, nós vivemos num regime de conflitos ditatoriais, ao ponto em que são apenas notícias na televisão, algo corriqueiro, dois mortos, dez, mil, tudo bem, é a forma que escolhemos para viver e dá para lidar com isso.

O povo de Klaatu, não, eles escolheram se acostumar a algo mais "humano" (eles o são mais que nós), e admito que chegou a rolar uma lágrima durante o discurso final, sem dúvida um dos mais lindos e significativos do Cinema - e o modo como o filme deixa a ameaça e o questionamento latente ao final é não menos que ousado. O visitante segue nosso sistema de forma sublime, apelando antes à política (uma casta manipulada ao extremo), ignorando a instituição militar (que ignora o conhecimento) e depois indo à Ciência, apelando para o lado intelectual em clara chantagem - também uma crítica à raça humana, uma dentre inúmeras. Numa reação violenta à petulância de todos nós, esse clássico respirará através dos séculos, e, em nossa ignorância, será taxado de "tolo". *****


O Ataque dos Vermes Malditos 2:

A continuação da baboseira hiper divertida de 1990 é outra baboseira divertida, que pode não ser agraciada pela total falta de pretensão do original, mas consegue arrancar umas boas risadas desde o começo, com uma mistificação oportuna do sucesso e da fama que o filme anterior alcançou. O que sobrou aqui é a intenção, pois os realizadores visivelmente tentaram tornar a série mais engraçada, e quando isso transparece, uma parte da mágica se esvai. Por sorte, a produção, em hilário contraste com as criaturas pré-cambrianas que os heróis enfrentam, é tão esperta que é estúpida, com cena após cena de absurdos que fazem sentido e nenhum sentido ao mesmo tempo. A galeria de personagens também só ganha com Fred Ward, totalmente à vontade em um papel que muitos teriam tornado chato, Michael Gross, um belicista demente que consegue sair dos clichês mais irritantes, e Helen Shaver, que protagoniza com Ward um daqueles “romances-sem-razão-de-ser”, com direito a comentários acerca da própria esquisitice desses romances. Chris Gartin, por outro lado, representa a fatia do filme que tenta ser engraçada, mas ele se revela espirituoso de vez em quando. Enquanto acredita nos monstros, em sua mitologia besta e lhe dá corda sem se levar a sério demais, o filme acerta. O tropeço está em dar a deixa para a péssima terceira parte, que se preocupa além da conta em fazer rir. ***


E.T. – O Extraterrestre:

Para elogiar o filme, tenho que criticar o mesmo filme, praticamente, e, de forma direta, seu diretor. O que Spielberg fez com E.T. é um crime hediondo, é um atentado à grande experiência cinematográfica que ele mesmo criou. E não estou falando só das armas que viraram walkie-talkies, isso é só a posição da gota de sangue no assassinato. Para mim, cenas bonitinhas que ficaram de fora do filme original não são uma chance desperdiçada, são o retrato da produção de um filme, algo que prezo muito. Adicionar cenas descartadas por ineficiência de efeitos é negar o retrato cinematográfico de uma época do Cinema, é querer tornar mais "acessível" algo que é, pelo bem e pelo mal, anacrônico. O que Spielberg fez para mim foi criar distância (o mesmo que Lucas fez com sua trilogia), foi negar o que havia sido feito para disfarçar algo que todo filme tem: limitações.

O CGI adicionado não engrandece o filme em nada, dilui sua iconicidade e atrai atenção para si mesmo, criando um anacronismo que passa longe do charme do filme de 82: é um anacronismo feio, que parece desdenhar toda uma época. O que é uma pena, pois os efeitos do filme são fantásticos, com o E.T. absolutamente convincente sem ser humano - a expressividade maior que os efeitos em computação adicionaram ao rosto do bichinho só me faz lamentar. O que Spielberg achava da marcante capacidade de emocionar que seu filme teve na vida de muita gente? Achou que CGI tornaria melhor? O extraterrestre emocionou como era, com seu rosto enrugado e plácido, seus olhos falsamente tolos e cansados, e esse boneno digital serelepe e arteiro não serve de nada, além de escancarar algo que estava belíssimo nas sutilezas.

É muito bom ver um filme que tem um ritmo todo seu, com um uso de silêncios e pausas que o cinema comercial de hoje em dia simplesmente não consegue aceitar. Os diálogos são raros, e dizem muito com pouco, e não me refiro só ao vocabulário limitado do personagem-título – vocabulário, por sinal, causa estranhamento, pois nenhum filme-de-estúdio atual botaria “penis-breath” na boca de um personagem, que dirá de uma criança. Não faltam, por outro lado, qualidades atemporais, como Henry Thomas, em uma das mais tocantes interpretações mirins que já vi – tão surpreendente que fica fácil acreditar que ele viveu uma amizade intergalática tão profunda. As cenas em que ele e E.T. dividem sentimentos são todas lindas (minha preferida é a dos sapos), e o próprio conceito é desenvolvido de forma cadenciada, sutil e sem a necessidade de explicação instantânea – outro belo anacronismo cinematográfico. Coroado por efeitos sonoros inesquecíveis, cheios de narrativa, e mais uma despudoradamente fascinante trilha de John Williams, esse filme foi uma experiência emocional que tornou-o um sucesso à sua época, e se tornou uma experiência de saudosismo (mesmo para os não nascidos nos anos 80) na linha temporal do Cinema. Isso é, claro, se ignorarmos que seu diretor se tornou covarde e vendido, e fez um esforço tremento para destruir sua obra em detrimento de um senso de moral e uma política de fazer filmes que constrangem cada vez mais seus fãs de outrora. ****¹/²

O Quarto do Pânico:
Se Fincher tivesse continuado na franquia Alien, depois do regular Alien³, teria saído O Quarto do Pânico. Filme totalmente baseado na direção e no clima que ela tenta desenvolver, o thriller serve para muito pouca coisa, além de mostrar o talento de Fincher. O problema é que o talento dele soa absurdamente deslocado com o péssimo roteiro de Koepp, é como coroar de flores perfumadas uma pilha de fezes recentes. Os bandidos, uma trinca de clichês ambulantes e mal-utilizados, só não são piores graças às boas atuações de Whitaker, Leto e Yoakam, que aceitam seus personagens mal escritos e retratam suas personalidades de forma eficiente. Foster, por outro lado, já está menos acomodada, tenta sempre dar vida a seu personagem, e consegue, de vez em quando, com pequenas nuances que mostram uma certa elaboração na performance - mesmo que isso não a torne incrivelmente interessante. Como único elemento digno de menção, me agradou muito que ela não se entregue pura e simplesmente à batida fórmula da Mãe-Leoa.

Didático e cafona, Koepp chega ao cúmulo de fazer Foster levantar o celular, depois de ver que não funciona, e murmurar "sinal, sinal, sinal", apenas para garantir que entendemos que ela está procurando sinal - parece que se ela simplesmente jogasse o celular de lado sem dizer nada, o público não acreditaria que não estava funcionando. Burnham é outro que sofre, não apenas pela escolha oportuna do roteiro de transformá-lo numa figura moralmente mais complexa (só moralmente), mas também pela insistência com que Koepp dispara pequenos detalhes que justifiquem seu posicionamento e sua existência enquanto Sr. Gente Boa - cheguei a ficar constrangido na cena em que ele aparece de braços abertos, como um sofredor. Num tiro no pé do roteirista, Burnham define Raoul ironicamente como "Joe Pesci", como se isso não o tornasse ainda mais derivativo.

O que mais demonstra preocupação com a eficiência profissional é Fincher, que entrou no filme ou por falta do que fazer ou por orgulho, já que o filme se mostra ótimo para provar o talento do cineasta. Os travellings (especialmente o que mostra a chegada dos bandidos) conseguem um notável equilíbrio entre elegância e tensão, dando inclusive uma fluidez geográfica para a decupagem e ajudando a boa edição – seria difícil montar mal um filme que define seu espaço e seu tempo tão bem, embora eu tenha ressalvas para com certos cortes/fade-outs medonhos. O clima de tensão é infelizmente sabotado pelos conflitos entre os ladrões, pois fica na cara que aquela desorganização só pode levar para o final que suspeitávamos desde o começo – e é curioso que alguns personagens digam “você sabe como isso vai terminar”, cada um com uma conclusão em mente, enquanto nós, espectadores, somos agraciados com a sina de sempre saber tudo. No entanto, a cena do celular é sublime e agoniante, e, nos melhores momentos, o roteiro consegue criar viradas bacaninhas, alternando catarse e frustração e dando energia ao filme. Uma pena que, tirando Foster e Fincher, animadíssimo com as possibilidades estéticas da produção, todos os envolvidos estavam com uma preguiça imensa, inclusive Howard Shore, que cria uma trilha mediana, cansada. Todos sabiam que não havia nada de interessante ali, então resignaram-se e fizeram seu filme regular. Fincher se esbaldou, e se não elevou o filme para uma aula de suspense, pode culpar Koepp e continuar no caminho dos corretos. **¹/²

Spartacus:
Conseguindo a façanha de me agradar mais ainda que Ben-hur, o épico de Kubrick é mais ou menos idêntico em escala, mas totalmente diverso em escopo. Enquanto o primeiro é um espetáculo em todos os sentidos, dos meios aos fins, esse usa suas proporções colossais como veículo para contar sua magnânima história. Usando a política de forma passageira (o filme conta História social, e é só no tocante a esta que o lado político aflora), o roteiro permite que os diálogos carreguem todas as significações da época, seja através do senso de humor peculiar, seja pelos sutis comentários acerca daquela sociedade, que não é esmiuçada visualmente, e sim ideologicamente, e sempre nas entrelinhas (o tratamento dado à homossexualidade é perfeito). Kubrick dirige com força, e seus travellings, planos-seqüência e movimentos de câmera soam como a única maneira digna de se filmar cada uma das cenas. A lógica das batalhas é subvertida, com figurantes passando na frente dos lutadores principais e atrapalhando a visão destes, uma escolha belíssima e coerente.

A trilha sonora dança através das cenas, numa elegância que não priva de força as marcantes melodias - ainda melhor, na única cena com música leve filmada em Roma, ela existe de forma artificial, devido a músicos colocados em cena. Douglas empreende um tour de force como o protagonista, retratando com sobriedade as intensas jornadas existenciais de Spartacus. Os coadjuvantes, espetaculares, do apaixonante Curtis ao perfeito Laughton, da poderosa Simmons ao inesquecível Olivier e ao arrasador Ustinov, todos ganham seu lugar, pois Kubrick valoriza o trabalho de cada um. Ao final, um sabor amargo que poucas tragédias alcançam: fica claro que milhares de mortes foram apenas capazes de dar à luz um único filho livre naquela população de escravos. Spartacus é um símbolo da Humanidade e de como o que parece corriqueiro hoje em dia já foi motivo de lutas das mais gigantescas. *****

O Lobisomem (1941):
O fato de ir além da história Bem x Mal, misturando certo, errado, bonito, feio, são e louco no caldo e misturando pra borrar maniqueísmos fáceis, me agradou bastante, ainda mais que a ótima maquiagem e a excelente ambientação. Chaney Jr. está espetacular (cena-do-ator preferida: quando ele ignora uma conversa inteira para olhar fixamente um dos presentes), sai bastante dos moldes do galã com simpatia e dramaticidade certeiros. Ankers, como uma dama-em-perigo cheia de significado, é precisa, e o roteiro a ajuda com um papel muito bem explorado. Rains, com inexplicáveis 50 anos (eu chutaria uma década a menos), é a figura plena da nobreza social, intelectual e de espírito, o que só torna sua cena final mais especial. Embora passe numa cuspida, o filme deixa grandes lembranças e cresce a cada revisitada mental. ****¹/²


Furyo - Em Nome da Honra:

Filme esquisito. Tem uma aborgadem peculiar de boa parte de seus temas (amor, honra, obsessão, choque de culturas), e acaba soando raso em boa parte do tempo. Os problemas de ritmo se empilham um atrás do outro; não chegam a ser tantos assim, mas são um bocado sérios. Oshima não sabia se preferia as entrelinhas ou o contexto principal, então temos momentos de nada, com o diretor procurando nuances onde não há nenhuma digna de nota, alternados com momentos de explicação em demasia, com Yonoi deixando sempre claro (para o espectador e para todos os personagens em volta) que está obcecado por Celliers.

Sakamoto, por sinal, está pavoroso além da conta - vale dizer que sua performance seria perfeita se fosse Brad Pitt na cena do carro de Queime Depois de Ler. Bowie não chega a constranger, mas tem pouco a fazer, já que seus momentos de reflexão são afogados pelos flashbacks (que contam ainda com narração em off - Oshima queria causar, fato), e não oferece nuances ao personagem quando tem a oportunidade. Takeshi está bem, e conseguiria emocionar com a mesma performance em outro filme, mas é Conti que se sobressai, num esforço visível e louvável, muito discrepante com o resto do elenco.

Embora o diretor filme bem, use uma fotografia interessante e acerte o tom de algumas poucas cenas (comentário válido para a esdrúxula, ocasionalmente eficaz trilha sonora de Sakamoto), a sensação predominante é a de que alguns temas poderiam ser mais bem desenvolvidos, e outros, desenvolvidos. É bom o retrato do encontro de culturas totalmente diferentes, o filme todo tem esse conceito em mente. Uma pena que outras coisas interessantes fiquem enterradas até que Oshima julgue que é hora de desenterrá-las. **

A Mundana:
Um dos diretores que mais estou gostando de descobrir: Wilder. Minha comédia preferida é dele (Some Like It Hot), e A Foreign Affair é igualmente um ótimo exemplar do gênero. Não digo que é tão bom quanto, mas é mais demonstração da habilidade do diretor em criar situações cômicas. Quando usa a guerra para fazer graça, Wilder não dá lugar para sutilezas ("Nós tivemos permissão para pousar na Normandia?"); uma ótima escolha, ressaltada pela fotografia, atenta às ruínas nas quais a cidade se tornou. Por outro lado, é poderosa a sutileza de momentos como quando Pringle dirige por entre os escombros, sorridente com um pensamento que só se saberá um minuto mais tarde qual é. A beleza é representada pela cena em que Frost foge de Prigle puxando gavetas como obstáculos, ao que ela a prende da mesma forma.

O elenco é um esplendor. Jean Arthur raramente passa do ponto na caricatura (o sobrenome Frost já deixa clara a opção pelo exagero), conseguindo passar por emoções fulminantes sem fraquejar. O garboso Lund também é bem explorado, sem ficar só nas facetas mais fáceis e práticas. Dietrich, por outro lado, rouba a cena, numa precisa caracterização da alemã caleijada, voluptuosa e blasè, contrastando com Frost de maneira exemplar e arrasando nos excelentes números musicais. Além das situações divertidíssimas, o roteiro ainda acerta no ritmo, que, embora vez ou outra soe apressado, mantém um fluxo de boas idéias constante - tanto que os elementos menos inspirados, raríssimos, pouco diminuem o filme. O clima de cinismo e segredos tem como palco perfeito aquela Berlim arrasada, cheia de cinismo e segredos por si só. E filmar sem ter que criar um mísero prédio destruído sequer é um daqueles bônus em que o brilhantismo de Wilder se mostra certeiro ao caracterizar seu tempo. ****

Tom Horn:
Doei essa tarde a McQueen, que eu infelizmente nunca tinha visto em filme algum (só no começo de Cincinatti Kid), e saí embasbacado. A coisa já começa forte com a fotografia espetacular, que consegue a façanha de se superar a cada momento, pegando vistas naturais ou jogando sombras poderosas nos cenários para nos colocar no lugar do protagonista. A trilha sonora também é poderosa durante o filme inteiro, se impondo sem interferir na igualmente (ou ainda mais) impetuosa narrativa. A história de Horn é contada sem meios-tons, explorando a fundo o personagem, que, afinal, não é complexo em seu estilo de vida. A beleza e pungência do retrato do homem é o que torna o filme marcante, através de diálogos singelos ("Não feche a cela antes de eu chegar na janela"), e outros filho-da-puta-mente ríspidos, e quando essas duas facetas se encontram, como quando ele comenta o Velho Oeste com Glendolene ou quando ele diz "Segure as pontas, Sam, que eu estou segurando as minhas", a fita alcança sua voltagem mais avassaladora. O final, claro, é de deixar sem palavras.

Adotando um tom frio e seco, o diretor Wiard acerta no uso de violência, sempre surpreendente (a cena do celeiro é brutal), e mesmo sem sangue, consegue criar uma série de mortes que impressiona pela rispidez - algo que a edição, insensível, faz questão de ressaltar. No entanto, é McQueen que junta o que seriam apenas pontas soltas. Sem sua excelente performance, seria difícil crer num cowboy veterano de guerra cujas cruéis e gélidas convicções têm espaço em meio a um sublime amor pela liberdade, que, num chapa bruto como ele, tem um preço colossal. É ao entender isso que o ator consegue nos convencer (algo essencial, já que convence também os moradores da região) que essa dicotomia habita em Horn, ao mesmo tempo em que retrata com intensidade ambos os ideais de sua vida. Contando ainda com um desenho de som de cair o queixo, esse western moderno cativa e surpreende através de caminhos tortuosos. *****

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

4

Ai no corida (Império dos Sentidos)
Além do provocativo no uso de cenas de sexo explícito, a obra de Oshima ainda acerta no extremismo de focar apenas as aventuras sexuais do casal, fechando-os numa reclusa rotina de fornicação e impulsos de ciúme doentio. Nagisa encontra nessa patologia sentimental o formato para o roteiro, que cria elipses constantes como se nada houvesse entre um ato sexual e outro, e a direção, que tenta explorar ao máximo o casal, mas acaba caindo numa repetição coerente de câmeras, fotografia e direção de arte. É difícil acompanhar um filme focado apenas consecutivas transas, mas, mesmo não espantando a monotonia, o diretor usa as cenas explícitas para reforçar a escolha narrativa, dando o diferencial que fecha o círculo e alimenta o roteiro - um enriquecimento mútuo, simbiótico. A construção para o pesado final também é muito bem feita, espantando uma possível interpretação da ousada escolha de Nagisa Oshima - a interpretação daquilo como pura pornografia.
Nota 9.

Etz Limon (Lemon Tree)
Sutil, mas ainda assim agradável, é a metonímia (ou seria anti-metonímia?) desse notável filme israelita. Como sua protagonista, o filme é corajoso, mas, enquanto ela o é por causa da inocência, uma falta de noção do tamanho da montanha que está movendo, o filme de Eran Riklis sabe exatamente o que ela está fazendo, e mostra essa trajetória heróica amplamente, por vários viéses. Claro que a visão de que os seres humanos são bons por definição, e que a política, o dinheiro (e de forma velada, a religião) os tornam maus vai contra a pegada onisciente de Riklis, mas ao menos permite uma que vasta gama de personagens, todos com funções narrativas belíssimas, preencham a tela e permita essa visão abrangente da questão.

O elenco não tem uma nota dissonante, com Abbass totalmente entregue às mais simples emoções de Salma; Tavory coerentíssimo, visto por toda as facetas que ele, como um homem público, deve ter; Lipaz-Michael mostrando um tipo de sofrimento estático, apático, numa bela demonstração de como ela tem desejos dissonantes com seu "cargo" (algo que o roteiro ressalta de forma brilhante); e Suliman, para fechar com chave de ouro, se apresenta em uma benevolente, porém corajosíssima solicitude - a cena em que ele faz a proposta da Suprema Corte é filmada de forma heróica, fazendo sentido narrativa e emocionalmente.

Afinal, o filme é tocante, usando de sua simplicidade redutiva (uma grande luta internacional em torno de limoeiros) com efeito surpreendente. Mais envolvente ainda é a bela declaração de Hassam (Kopty, simples e arrebatador), que resume bem a cena final do filme: árvores são pessoas, e por mais que algumas morram e algumas vivam, hemos sempre de lamentar muito pelas que morreram. Não há vida que compense o que não deveria ter morrido. Não é pessimismo, é a verdade do luto (outro tema sutil e lindamente abordado, dado o número de já finados da história). Embora peque aqui e ali no simplismo, o filme se vale de um escopo mais elaborado, via de regra. Não compensa as falhas, mas faz crescer.
Nota 8,5.

Bird Watchers - La terra degli uomini rossi (Terra Vermelha)
O cinema mais interessante do ano é o brasileiro. Fato. Acertando tanto nos nacionais da gema quanto nas co-produções (Leonera, Ensaio sobre a Cegueira), a segunda categoria é agraciada com o espetacular Terra Vermelha - por sinal, é curiosa a relação de títulos estrangeiros, com Observadores de Pássaros em inglês seguido de A Terra dos Homens Vermelhos em italiano.

A começar com um elenco irretocável, o diretor Bechis (que movimentos de câmera belos!) acerta ao empregar uma direção de atores diferente, pois os intérpretes pouco usam seus rostos como recurso dramático. As poucas variações são expandidas pelos olhares profundos e pelos diálogos, que, numa lógica que rima com a tradicional japonesa, exprimem de forma seca e direta o que as faces não se preocupam em oferecer - algo que o maravilhoso desenho de som também ressalta. O roteiro, de Bechis e Bolognesi (do excelente Chega de Saudade), ainda usa de uma dramaturgia ótima, baseada num conceito que permeia o longa em vários níveis: a relação tradição x modernização, pertinentíssima quando se fala de indígenas brasileiros (quem é o Angué?), e resulta em momentos fortes e sublimes.

Derivada dessa, mas ainda mais interessante a meu ver, é a relação colonizador x colono, demonstrada desde o começo através de uma ópera européia, que, numa cena que mostra índios caminhando pela floresta, causa estranhamento - apenas para mostrar o perfeito motivo de seu uso alguns segundos depois. Essa discussão se desdobra em elementos menos óbvios, indo direto ao cerne da questão dos suicídios e criando belos constrastes. Num dos duelos mais estarrecedores do ano, o Moreira (Medeiros, maravilhoso como de costume) dá o seu discurso sobre sua herança cultural, ao que já sabemos que Nádio (Ambrósio Vilhava) o superará. O que ele faz, no entando, supera qualquer tipo de resposta imaginável. Uma das cenas do ano. Encerrando-se de forma sublime, numa daquelas frases finais à la Sangue Negro, o vibrante Osvaldo (Abrísio) mostra-nos quem é o malévolo espírito Angué, na apoteose da relação índio x colonizador. Outra cena difícil de esquecer, e, sendo a terceira só nesse filme, este como um todo marca profundamente.
Nota 9.

Belle de Jour (A Bela da Tarde)
Um daqueles jogos de realidade e fantasia que deixam uma impressão forte, seja pela força da fantasia, seja pela pungência da realidade, e principalmente pela impossibilidade de discernir (sem comprometer o formato do filme) qual é qual. Usando elipses espaciais e temporais de forma quase irônica, com uma intenção desorientadora, o resultado é uma história de partes que formam um todo irregular, cuja absoluta discrepância dão um formato surreal, coerentemente fragmentário à experiência. Estamos num mundo em que sentimos o que a Bela da Tarde vive, mas essas sensações não se derivam somente do que ela vive de fato: seus sonhos enquanto desperta causam sentimentos tão fortes quanto. Deneuve é puro charme e introspeccção, um servindo de contraposto para o outro ao que mergulhamos mais fundo nas viagens mais insanas de sua mente. Com coadjuvantes que parecem estar lá para desorientar mais ainda, o filme explora a relação entre realidade e fantasia ao máximo, incluindo-se aí a câmera de Buñuel, que "parece" ser operada por um fetichista de pés e mãos, e o elegante desenho de som, que sugere muito do que não é mostrado. O figurino de Saint-Laurent, que poderia ficar em segundo plano, consegue, além de ser chique ao extremo e belíssimo, dialogar com a narrativa exatamente por essas qualidades. Um filme de cerne coerente, redondo; mas de superfície irregular, espinhoso.
Nota 10.